The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Vais daqui, vais de carrinho

Ainda sou do tempo em que “ir ao Passos” significava sair à noite no Porto, ir beber um copo ao Passos Manuel, antigo cinema reconvertido em bar/cinema/sala de concertos/etc., aninhado numa das dobras modernistas do Coliseu do Porto. Abria às dez, mas só se sabia se aquilo ia animar entre a uma e a uma e meia. Se animava, durava até às quatro; nos dias especiais até às seis. A seguir ainda se podia tentar um dos sítios mais tardios, que só fechavam quando a manhã seguinte já ia a meio. Não era um horário invulgar. Já era assim quando, antes do Passos, havia o Aniki e o Meia Cave, antes da noite do Porto se deslocar da Ribeira para o eixo Poveiros-Aliados-Rua de Ceuta-e-suas-perpendiculares.

Por comparação com outras movidas, era uma noite tardia, desconfortável no inverno, pelo frio e pela chuva, desconfortável no dia seguinte, ocupado com sono e ressaca. Sempre cismei sobre os motivos deste horário, e desconfiei da teoria comum que era assim para aproveitar ao máximo a noite. Se assim era, porque não começar mais cedo? A explicação que se devia aos jantares prolongados também não me parecia convincente. Quando era estudante, ou gastava dinheiro a comer ou a sair. A mesma coisa com o cinema ou um concerto. Na maior parte das vezes ficava a ver televisão até depois da meia-noite. Lembro-me de, ainda estudante, estar a fazer tempo, vendo os Ficheiros Secretos.

Para mim, a melhor explicação não é óbvia: saía-se a essa hora porque é quando acabam os transportes públicos regulares, o metro e os autocarros. Era a última oportunidade para alguém com o passe ir da periferia para o centro. A partir daí, a mobilidade máxima ficava reservada a quem tinha carro, morava no centro ou tinha dinheiro para pagar um táxi. Sair à uma era assim uma forma subtil de ostentação, onde ter um carro (ou pelo menos a carta) era determinante e portanto um símbolo de estatuto social. Determinava a possibilidade de ficar até um pouco mais tarde, de experimentar sítios e oportunidades um pouco mais longe, de verificar se valia a pena sair em mais sítios. Não era um protagonismo tão central ou óbvio como no cruising americano (tal como pode ser visto no filme American Grafitti), onde a identidade social de um adolescente era determinada sobretudo pelo seu carro, sendo através dele que se relacionava com os amigos, que seduzia ou era seduzido, que resolvia os seus conflitos. Mas era ainda assim central, numa sociedade como a portuguesa, onde o automóvel pessoal é evidentemente um símbolo de estatuto e poder. Basta recordar a história dos políticos que acham que andar de Clio seria uma despromoção.

Se falo no pretérito não é porque o carro se tenha tornado menos importante ou até essencial para os portugueses, mas porque vários factores tornaram a noite mais acessível. Em primeiro lugar, o turismo low cost aumentou a quantidade de gente com hábitos distintos, para quem passar umas horas a fazer tempo para sair era um desperdício. Em parte graças a essa procura, aumentou a oferta de sítios e eventos disponíveis mais cedo. Além disso, o telemóvel e a internet permitem perceber ainda em casa se vale a pena ou não sair. Ter um carro ainda dá mobilidade mas já não é um factor tão determinante.

Mas o exemplo ainda  interessa porque, se a causalidade se verificar, demonstra que factores como a posse de um automóvel determinam hábitos de um modo subtil mas crucial. Demonstra também que não são os serviços públicos que são ineficientes em si mesmos mas a sociedade que se estrutura de modo a secundarizá-los. Por outras palavras, para que se tornem eficientes seria preciso mudar costumes de um modo sistemático, prolongado e consequente. Para tal, não basta criar e manter uma rede de transportes públicos como alternativa a um transporte pessoal, mas deve-se lutar para que tenha um papel central, marginalizando o mais possível o uso de automóvel, tratando a sua publicidade como a dos cigarros, reduzindo-a e se possível proibindo-a, explorando a sua associação popular ao endividamento, ao consumo excessivo, à mortalidade nas estradas, etc. Seria necessário desfazer toda uma rede densa de hábitos que associa o carro a uma mobilidade social ascendente – nos concursos televisivos dos anos 80, o prémio de sonho era quase sempre um automóvel, enquanto em Espanha, por exemplo, se ofereciam apartamentos (já agora, veja-se onde isso os levou).

Claro está, tudo isto são especulações: para quem vive fora de Lisboa ou do Porto, ter um carro é fundamental. Ainda este Agosto, em Tavira, pude verificá-lo: numa emergência médica nocturna, a farmácia de serviço só abriria mediante receita médica; a receita médica só no Hospital, em Faro ou Vila Real de Santo António; etc. A degradação da rede de transportes ou seu deficiente subsídio, tudo isso levou ao progressivo abandono. E neste momento usa-se o carro, não por ostentação ou economia (porque é cada vez mais caro, em gasolina, manutenção, portagem ou estacionamento) mas porque não há alternativa.

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Filed under: Crítica, Cultura, Não é bem design, mas..., Política, Prontuário da Crise, Publicidade

2 Responses

  1. João Gomes diz:

    Sendo descendente directo de Cacelenses e tendo passado um total cumulativo superior a um ano da minha vida nessa região (em férias, evidentemente), posso dizer que a principal razão para nem sequer considerar por um momento vir algum dia a viver na “minha” terra é justamente essa, o atraso estrutural nas infra-estruturas de transportes mas, especialmente, na mentalidade das populações e dos governantes.

    Haver alternativas ainda vai havendo, mas são totalmente disfuncionais e desadequadas; a linha da CP parece ter a morte anunciada há mais de 20 anos (que me lembre!), apesar de há uns 18 ter sido construído um viaduto rodoviário de atravessamento da mesma em Cacela com espaço para via dupla… Decisão de engenheiros, talvez, ou contrapartida direitinha para o bolso de alguém?

    Mais absurda é (era? espero que já a tenham rectificado) a situação dos “autocarros sociais”, disponibilizados pela CMVRSA. Uns amigos meus, igualmente “filhos da terra” sem o serem (quatro primos, todos criados em Bruxelas, dois deles já a viverem em Lisboa desde há muitos anos e os outros dois repartidos por Bruxelas e Dublin), tentaram embarcar num desses ditos autocarros, que ia VAZIO; resultado, não lhes foi admitida a entrada pelo motorista porque os mesmos eram financiados pelo estado a fundo perdido (Segurança Social? FEDER? Com fundos próprios da edilidade? Não me recordo, mas sei que eram dinheiros públicos), exclusivamente para uso das populações locais (se só as carenciadas, se toda a gente, isso já não sei) e, pasme-se, não existia qualquer tarifário nem sistema de cobrança de bilhetes, por mais simples que fosse, para alguém que estivesse interessado nisso e tivesse recursos para custear a viagem.

    Dá que pensar, certo?

  2. João Gomes diz:

    Correcção: quando dizia que o viaduto tinha sido construído há uns 18 anos, fiz confusão… Na verdade, foi construído há uns 24-25 anos; eu lembro-me de ir ao estaleiro à socapa com o meu avô, como veio a ser meu apanágio uns anos mais tarde (talvez tenha sido aí que apanhei o bichinho das obras inacabadas). Resumindo e baralhando, estou a ficar velho. 😉

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