The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Só vim aqui para dizer que afinal não venho

Uma proposta para 2013, dirigida aos cronistas dos jornais portugueses: escrevam sobre assuntos que interessem – não a mim, claro, mas a vocês próprios. Já não tenho paciência para gente que ocupa espaço num jornal, na televisão (onde quer que seja), a dizer que só se dá ao trabalho de comentar certo assunto porque ele não interessa ao próprio comentador. E, como não lhe interessa, não deveria interessar também a mais ninguém.

Os exemplos são muitos e demasiado frequentes para inventariar: as recensões a filmes portugueses que insistem em lembrar que o Cinema Português não existe; o artista plástico que responde a uma crítica começando por dizer que, não só não é uma crítica, como nem sequer há crítica em Portugal; os opinadores que lamentam o incómodo de escrever sobre um não-assunto ou um epifenómeno, etc.

O maior praticante da arte é sem dúvida Vasco Pulido Valente que, tanto quanto consigo perceber, nunca escreveu sobre nada que lhe interesse. Nem se trata de distância crítica mas de um desprezo puro, ascético – se fosse um objecto, andaria próximo do lábio superior fino e arreganhado do Clint Eastwood, a deixar ver um bocadinho de gengiva; não o beiço grosso de um Billy Idol, que já dá a entender entusiasmo, uma satisfação erótica no acto de desprezar, mas um desprezo seco, em que até o próprio desdém é desprezível.

Um exemplo recente da tendência: Com alguns meses de atraso, Miguel Esteves Cardoso resolveu comentar a Polémica dos Historiadores, que opôs Manuel Loff a Rui Ramos, mas envolveu pelo menos mais uma dúzia de pessoas, incluindo Maria Filomena Mónica, José Manuel Fernandes, António Barreto, Irene Flunser, Diogo Ramada Curto, Fernando Rosas, Pedro Rolo Duarte, Pedro Mexia, António Guerreiro, ou João Paulo Avelãs Nunes. São os que me lembro, mas sei que houve bastantes mais, sem incluir os bloggers, entre eles eu próprio. Se faço esta lista é para lembrar que está em curso uma troca de galhardetes que se prolonga há mais de meio ano. A última contribuição (até agora) é precisamente uma resposta no Público de 31 de Dezembro de Luís Reis Torgal ao comentário de Miguel Esteves Cardoso na sua crónica de 22de Dezembro.

Pois bem, Miguel Esteves Cardoso diz “que não houve [polémica], por falta de participação e de paciência da pessoa acusada de adoçar o Estado Novo [Ramos], porventura por ter mais que fazer”. Ora Ramos não só participou como o fez mais do que uma vez. E mesmo que não o tivesse feito, bastaria lembrar a existência da tal dúzia de pessoas, de tudo o que escreveram, de uma ou outra acusação de difamação, etc.

Nesta altura, é capaz de ser útil uma declaração (literal) de interesse: escrevo sobre este assunto porque me interessa. Porquê? Porque é um excelente exemplo daquilo a que o filósofo José Gil chama a não-inscrição. Erradamente, usa-se o conceito para designar uma suposta timidez da sociedade portuguesa, que não diz as coisas em público por receio, por falta de hábito, porque prefere resolvê-las nos bastidores. Ora, a não-inscrição é uma ideia mais subtil. Não descreve um silêncio mas uma abundância. Descreve a multiplicação de situações em que se fala para dizer que nada é dito, que se faz para demonstrar que nada é feito, se declara que nada é declarado. A não-inscrição consiste neste processo activo de tornar o discurso numa coisa subtractiva, onde por virtude do próprio discurso, nenhum discurso se pode fixar mais que por um momento. Não é uma censura, no sentido de um processo exterior ao discurso público que o limita ou  elimina do lado de fora, mas um dispositivo interno que destrói a legitimidade do discurso a partir de dentro.

Dentro de um discurso público saudável (ou pelo menos educado), o mínimo de respeito que se pode demonstrar por um interlocutor é discordar dele. Admitir que ele ou a discussão existem deveria ser natural. Dentro do discurso público português, pelo contrário, só com algum esforço se chega a isso. Em geral, nega-se a pertinência do assunto, a legitimidade do interlocutor, a própria existência da discussão – tudo isto enquanto se discute. O resultado é uma discussão amuada e enjoadinha. Que não interessa porque, simplesmente, não se interessa.

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Filed under: Cultura, curadoria, Não é bem design, mas..., , ,

One Response

  1. diana diz:

    A d o r o.
    Acho esta entrada muito, muito, pertinente.

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