The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Reflexões à Margem de Foucault

Ando a reler o Nascimento da Biopolítica de Michel Foucault (1979), por onde já tinha passado por causa de Toni Negri e Michael Hardt, que usavam o conceito em Império (2000), para falar de precariedade e oposição a um capitalismo total. Voltei a ele por causa de António Guerreiro.

Neste momento, em plena crise, parece-me um livro inteiramente novo, quase como se nunca o tivesse lido antes. Em parte porque conheço melhor a obra e a metodologia de Foucault (onde baseei a minha tese de doutoramento), em parte porque também ando a ler Karl Polanyi, A Grande Transformação (1944), que já tinha coberto o mesmo assunto décadas antes, no fundo uma história crítica do Liberalismo, desde o século XVIII até meados do século XX.

Para Foucault, esta é (entre outras coisas) a história de como o Mercado se tornou num lugar de produção de verdade, a instância onde se apura a eficácia de um Governo que se deseja mínimo – um esquema evidente agora, em cada manchete de jornal, em cada comunicado do Governo ou da Troika.

Mas se o Mercado se tornou a instância final onde se legitima a política ou a ética, (a partir daqui começam as minhas próprias notas) a crise também cria populações inteiras que lhe são marginais, pelo desemprego, pela falta de representação democrática ou institucional, que se organizam de modos muito distintos, de uma espécie de mutualismo político (de esquerda ou direita, em geral extremas) ou apolítico, por vezes religioso, por vezes apoiado na família, ou na identidade étnica ou geográfica (vê-se isso na nova emigração). Tudo isto são possibilidades de organização social que já coabitavam com Governo e Mercado (que o antecediam até), que eram desencorajadas por este, penalizadas judicialmente e moralmente, mas que voltam a aparecer, ocupando novos nichos, onde tanto o Estado como o Governo se tornaram ineficientes.

Não são de modo algum nichos de Mercado; só por uma analogia muito tosca podem ser integrados na teoria económica. Têm a sua própria ética, a sua própria dinâmica, a sua própria identidade – veja-se como os seus protagonistas são aqueles que o Mercado ou o Governo marginaliza: os desempregados, os pobres, os doentes, os reformados.

Todos estes se vão tornando de algum modo criminosos por defeito, nem que seja apenas do ponto moral, porque a explicação mais fácil, imediata, para a sua miséria, é serem culpados de alguma coisa, nem que seja de uma deficiência social, uma doença. A discriminação nunca é vista como um defeito do preconceituoso, mas da própria vítima – da minoria que se mostra de mais, que se exibe. O mesmo em relação à discriminação positiva, com a única diferença que atribui uma qualidade e um heroísmo à pobreza, simplesmente porque é pobre – e é alimentada por todo o jornalismo de grande reportagem ansioso de construir vítimas e heróis da crise num mesmo momento.

A solução não é a simples informação ou denúncia, mas deve ser também uma crítica dos mecanismos de informação ou denúncia. Perguntar: como é possível informar ou denunciar sem vitimizar, emancipando, se possível?

Anúncios

Filed under: Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: