The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Modesta Proposta

Há certas artes que não mereciam qualquer apoio, sobretudo vindo do Estado. Tirando uns poucos beneficiários ao topo, criam à sua volta uma esfera absurda de injustiça, de trabalhadores pouco ou nada pagos, de um serviço mal feito e condescendente, barato. Uma sensação que, para além de serem  más, em qualidade e em ética, também monumentalizam uma chico-esperteza fundamental, ostentando com orgulho o facto de serem feitas à custa de outras pessoas, do seu sacrifício.

Nos piores casos, a própria designação já é um forte indício dessa chico-esperteza e não deve haver pior exemplo que a chamada criação de emprego, sobretudo quando produzida por aquele chico-esperto entre os chico-espertos que é o empresário que se vê a si mesmo como um criador de emprego.

Durante algum tempo pensou-se na criação de emprego como um encontro de vontades, a do empresário com o trabalhador; agora tende-se a pensar que consiste na acção do criador de emprego sobre uma massa amorfa, inerte, traiçoeira até – o trabalhador. Dantes, pensava-se no trabalho como um serviço, um bem, que o trabalhador vendia ao patrão. Agora, é o próprio patrão que vende o trabalho que criou ao trabalhador, um objecto delicado e precioso que, na maioria dos casos, o potencial funcionário não merece, nem sabe usar.

Um exemplo: outro dia, alguém me dizia que recusou um emprego num café. Dois e tal, três euros à hora, part time de seis horas diárias, o que até é dinheiro para quem não recebia há meses, mas o dono punha uma condição curiosa (para se precaver, dizia ele): só começava a pagar ao fim do segundo mês, porque os trabalhadores tendiam a desaparecer rapidamente (sabe-se lá porquê). O último mês depois era de graça. O trabalhador recebia o depósito e já não precisava de vir. No fundo, era como se o patrão alugasse o emprego ao seu funcionário.

Se a ideia parece absurda não é certamente pela sua lógica, grosseira mas impecavelmente económica: na crise actual, um emprego é precioso, logo faz sentido que o trabalhador ofereça mais do que o seu trabalho para o ter, seja umas horas extra, as deslocações, um mês de depósito.

A minha modesta proposta é simples: se a injustiça disto tudo é invisível à economia, talvez não escape à estética. Se, na crise que vivemos, é importante a criatividade do emprego, o que na grande maioria das situações significa descobrir maneiras inexploradas de explorar o parceiro, se calhar era útil começar a fazer recensões de emprego, pensar no trabalhador como um espectador que vai participar na experiência de ter um emprego. Afinal, se está a pagar pelo emprego, seria bom saber no que se mete. Há quem goste de um emprego casual, divertido, e não aprecie empregos mais Kafkianos ou Dickensianos. Ver o emprego como uma estética seria também útil para discutir os apoios que o Estado dá à criação de emprego. Eu não concordo, mas se calhar até era bom apoiar os empregos que tivessem mais apoio público, que se podem consumir despreocupadamente enquanto se mascam umas pipocas.

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Filed under: Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

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