The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Outras ruas para ocupar

Quanto ao vídeo da Samsung, o tal da blogger de moda cujo desejo para 2013 seria comprar uma mala Channel, e que tem andado a gerar um coro de assobios na internet, não vejo nada de particularmente reprovável no que a rapariga disse. Terminou o mestrado, arranjou um emprego, tem menos tempo e o desejo “consumista” dela para 2013 seria “poupar dinheiro” para comprar uma mala Chanel.

Talvez soasse melhor se dissesse que andava a angariar dinheiro para uma campanha de combate à fome. Mas se ela acrescentasse que achava mal que uma família fizesse sacrifícios (poupasse) para ir a um concerto rock (ou comprar um filme, ler um livro ou comprar uma mala), muita gente (talvez a mesma) a criticaria também.

Por esta altura, já devíamos ter aprendido que, pior que simplesmente empobrecer (como pessoa, família ou país), é ter alguém a dizer-nos qual a maneira moralmente mais correcta de empobrecer.

Esta crise tem sido usada como pretexto para moralizar por tudo e mais alguma coisa, principalmente para pregar uma sociedade mais desigual, mais pobre e mais imóvel, como se isso fosse uma virtude. Ora, a roupa e o estilo de vida, desde os dandies aos sapeurs, passando por punks, mods e zazous, é uma boa maneira de fazer frente a uma sociedade de classes. O dandy, ao construir a sua identidade pública através da sua própria roupa e não da sua família, conta bancária ou local de nascimento, recusa todas essas determinações sociais.

A moda de rua, vernacular, sempre teve o potencial para chocar e portanto para ser usada como arma de arremesso, promovendo minorias políticas, raciais, sexuais, nacionais ou simplesmente de gosto. Seria aqui que começavam as tendências que mais tarde se espalhariam ao resto da sociedade. É a rua como vanguarda.

Mas, ao longo da última década, com o aparecimento dos bloggers de moda, muitos deles fotógrafos, o carácter da moda de rua mudou, sobretudo o que “rua” quer dizer. Talvez o melhor e mais bem influente exemplo da tendência seja Scott Schuman, que mantém o The Sartorialist desde 2005. Ele começou por fotografar as ruas de Nova Iorque, com olho para o detalhe e um gosto assumido pelo que se poderia considerar High Hipster, um estilo usado por gente mais velha e com dinheiro (calças justas, curtas, óculos de massa, barbas bem cuidadas, oxford feitos por medida, várias combinações de texturas, centradas à volta da fazenda, etc.)

Com a fama, a rua de Schuman passou a ser o passeio em frente aos diferentes eventos que compõem o circuito de moda internacional: modelos, estilistas, editores, fotógrafas de moda de rua (ele tem uma tag só para esta categoria e é casado com uma das mais influentes representantes da tendência). É, portanto, uma rua que não está ao alcance de todos.

Durante a última década, a própria ideia de moda de rua foi ocupada a partir de cima, tornando-se uma representação e celebração de luxo e não de espontaneidade e vanguarda. Seria interessante perceber se há alguma resistência a isto – uma espécie de Occupy Street Fashion, calculo.

Quando muito, o que se pode criticar na campanha da Samsung é ainda achar que o género de moda representado pelo típico blogger de moda ainda está na moda nesta fase da crise.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design

One Response

  1. eu diria mais: acharia extremamente reprovável que alguém com o nome de Pépa Xavier, desejasse outra coisa para 2013 que não fosse uma carteira da Channel. (e quanto mais vezes digo o nome Pépa Xavier em voz alta, mais certeza tenho na minha convicção)

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