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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Mercado da Culpa

Uma falha de mercado ocorre quando o ganho de um agente acontece à custa de perdas para a sociedade em geral. Neste momento, a União Europeia já não é um mercado comum, mas um conjunto de falhas de mercado sustentando-se umas às outras às custas de uma grande parte da sua população.

É habitual invocarem-se as origens da crise, nem tanto com o propósito de perceber o que correu mal, mas para repisar bem quem tem as culpas e quem deve pagar a factura. Aqui em Portugal, a culpa política foi atribuída ao Governo Sócrates e a económica à classe média, tanto um como outro gastando mais do que tinham. Do lado da Europa, Durão Barroso faz sempre questão de frisar que não foi a União Europeia que criou a crise. Etc.

Tornou-se habitual cada um dos putativos culpados (toda a gente já foi acusada de alguma coisa), antes de fazer alguma intervenção pública começar por assumir ou deflectir algum tipo de culpa: “não fui bem eu” ou então “foi ele”, dependendo do grau de responsabilidade.

É cansativo, e não ajuda muito, porque o problema é claramente sistémico: não há uma só causa. Há culpa que chegue para todos. Pode-se atirá-la para um bode expiatório mas isso não ajuda a resolvê-la. A crise americana do crédito precipitou a crise europeia. Tanto ao nível internacional como ao nacional, cada uma das crises foi usada para moralizar: sobre os países preguiçosos do Sul, sobre os maus hábitos da classe média, sobre tudo e sobre nada.

É como atribuir a culpa de uma epidemia ao pecado, à usura, a um cometa ou ao comunismo. A verdadeira causa continua a ser um vírus. Usar os seus sintomas como pretexto para induzir pelo medo uma sociedade inteira à mudança só torna a doença mais perigosa porque turva as suas verdadeiras causas.

Na dúvida, ou quando confrontado com uma das muitas instrumentalizações desta desgraça, convém constatar que uma crise que afecta ao mesmo tempo vários países com economias muito distintas, com ou sem défices, que reagiram à crise de modos distintos, mas apesar de todas estas diferenças evoluem de modo semelhante, dá a entender uma causa comum, ao nível europeu.

A União Europeia assenta em parte na ideia que, criando um mercado comum, uma união política acabará por emergir da interacção livre dos países nesse mesmo mercado. À maneira liberal, a legitimidade política da união europeia vem portanto de ser um mercado. A sua influência legislativa sobre cada país faz-se em termos de assegurar o funcionamento o mais desimpedido possível desse mercado alargado, através da moeda única que agiliza a interacção económica de um conjunto de países muito distintos entre si.

Nesta fase da crise europeia, quase meia década perdida, não importa muito perceber qual o culpado. Já é uma tarefa que cabe ao historiador. Importa mais perceber o que impede a sua resolução. E o obstáculo mais visível é, em primeiro lugar, o próprio Euro que funciona para países como o nosso como uma armadilha. Estando no Euro, não temos a flexibilidade que uma moeda própria permite; saindo do Euro ficamos entregues a nós mesmos.

As próprias instituições europeias, baseadas em mecanismos técnicos, puramente económicos, de intervenção, deixam o campo aberto a uma política de alianças e de pressões à antiga: o Governo Português alia-se ao Governo Alemão, os GIIPS (sem Portugal) reúnem-se para fazer um grupo de pressão, a Inglaterra ameaça a saída, etc. A maneira como se está a resolver para já esta crise é perfeitamente oitocentista. E o discurso da culpa exacerba as diferenças entre cada um destes agentes, tornando-os irredutíveis a uma causa comum, e vai desfazendo a Europa usando como base os mesmos mecanismos que a criaram. As mesmas instituições que protegem um mercado livre são exactamente as mesmas que o destroem, fazendo surgir unidades mais primitivas como a nação, a aliança, a família, etc.

Assim, o problema não é tanto o da Europa ser uma tecnocracia mas de não o ser o suficiente – ou até realmente. Se o fosse, seria fácil corrigir os desequilíbrios repartindo sacrifícios entre os diferentes países. Dentro da teoria macroeconómica há bastantes ideias e alternativas sobre como fazê-lo. Poder-se-ia impedir os países mais abastados de prosseguirem políticas de austeridade em tempo de crise, fornecendo mercados para os países em dificuldades. Mas a teoria é uma coisa; na prática, há as pressões da Alemanha, as pressões de bancos, que o impedem, distorcendo o mercado a seu favor, e agindo sobretudo através da pressão política. Uma prova circunstancial: o derradeiro argumento do neoliberal português (veja-se José Manuel Fernandes, Rui Ramos, etc.) acaba por ser não o da política sujeita a um mercado livre mas o oposto: o de um mercado livre tornado inevitável pela ameaça da crise, da realpolitik da Sra. Merkel, da insustentabilidade da classe média, etc.

Se o que está a acontecer é realmente uma crise e não apenas uma nova ordem política, um novo quotidiano, não haveria tantos neoliberais a encolherem os ombros com toda a naturalidade em relação a todas as pressões políticas de países como a Alemanha sobre o resto da Europa, por exemplo.

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Filed under: Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

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