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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Será que é possível reindustrializar o design gráfico?

Há muitos, muitos anos, praticamente desde que a disciplina se institucionalizou em Portugal, um dos maiores e mais consensuais objectivos do design gráfico tem sido estabelecer uma ligação com a indústria. Esse era um dos propósitos do falecido CPD. E já perdi a conta a todas as ocasiões oficiais em que ouvi a ideia ser solenemente repetida, todos os papers, artigos e teses onde a li. A aproximação do design à indústria lembra o que se diz de todos os filmes do 007 desde, pelo menos,1983:[1] que nunca se tinha apresentado um Bond tão frágil e humano. Três décadas depois, o agente secreto já tinha obrigação de ser mais humano que a maioria das pessoas. Quatro décadas depois, o design gráfico português já tinha obrigação de ter a sua ligação à indústria.

Mas, apesar de todas as boas intenções, o design gráfico foi-se afastando cada vez mais da indústria. À primeira vista, pelo simples facto do cliente não compensar. Em primeiro lugar, por uma questão que poderíamos chamar “cultural”: não é um trabalho gratificante. Por um lado, não tem tanta visibilidade como trabalhar para o Estado ou para a cultura, por outro é uma relação tradicionalmente difícil, tanto por falta de preparação do cliente como dos próprios designers – talvez porque o produto típico da indústria portuguesa não costuma precisar muito de design, nem na sua concepção, nem na sua comercialização.

Assim, a especialização tradicional dos designers de topo em Portugal tem sido a cultura e o Estado, depois disto os serviços, e finalmente a indústria. O Estado (onde encaixa também a cultura) é o cliente preferencial em grande medida por causa do processo neoliberal de redução do peso do Estado na economia. No fundo, tratava-se por um lado de dar um ar eficiente aos serviços públicos e à cultura. De, ao longo de quatro décadas, construir uma imagem empresarial para o Estado. Por outro, o design gráfico participou no investimento crescente em sectores menos afectados pela concorrência internacional liberalizada, como é o caso da educação, da saúde, da energia, dos transportes. Tratou-se, essencialmente, de produzir uma identidade de mercado para o próprio processo de privatização.

Ao nível interno da disciplina, mesmo os processos do design se afastaram da indústria. Se em tempos funcionou como uma gestão intermediária da pequena indústria que são as gráficas, com a informatização afastar-se-ia cada vez mais deste contexto, assumindo-se declaradamente como um serviço, e acompanhando assim a tendência geral para investir nesta área.

A evolução do seu ensino demonstra-o. Numa primeira fase, tentava formar profissionais para qualificar pequenas e médias empresas. O género de trabalhos produzidos no curso de Design do Porto a meio da década de noventa ainda o atesta: logótipos, rótulos de vinho, expositores, stands, desdobráveis, tudo organizado em manuais de identidade. Com o tempo, o peso deste género de trabalho diminuiria, acompanhando a redução do peso das pequenas e médias empresas na economia. As empresas de maior dimensão, por sua vez, recorriam com mais frequência a grandes agências para cuidarem da sua identidade pública.

Muitos designers, neste contexto, tornam-se funcionários internos ou avençados, aplicando identidades que não criaram. A ênfase do design vira-se para a administração de informação, a criação e organização de sites, a paginação. Torna-se num serviço que vai desde a programação até ao secretariado.

Com estas competências e uma formação de base que ainda inclui a criação e administração de identidade empresariais, o designer está particularmente bem equipado para responder a uma necessidade inesperada da economia: o turismo e a cultura low cost em cidades como o Porto e Lisboa, onde muitos hostels, restaurantes e lojas não só assumem identidades exóticas produzidas por designers como, em muitos casos, são criados e geridos por eles.

Se ainda há alguma ligação à indústria mais forte acontece dentro das universidades, em incubadoras de empresas, em projectos de investigação, etc. O problema mais evidente é que os designers participantes ainda estão dentro de um contexto de formação, naturalmente limitado em termos de tempo à duração de um curso ou de uma bolsa. Ou seja, são trabalhos feitos em início de carreira, o que pode ter a vantagem da frescura mas tem a desvantagem da falta de experiência. No fundo tratam-se de estágios mais ou menos remunerados realizados ainda dentro da universidade – uma espécie de vá para fora cá dentro.

Não é portanto do lado do ensino que a ligação à indústria está em falta. Contudo, surge sobretudo como uma necessidade, imposta pela falta de financiamento do ensino superior e sustentada (sempre) por fundos europeus. Por tudo isto, não tem grande poder negocial tanto com o governo que ainda lhe assegura a maioria do financiamento e lhe dita aquilo em que deve ser gasto, minando-lhe a autonomia científica, como com as indústrias com quem é suposto colaborar. E, no fim, fica sempre a ideia, como em tudo o que é académico, de nada disto acontecer no suposto mundo real – apesar de tudo o que implica em trabalho, vidas e dinheiros.

Concluindo, será difícil reindustrializar o design gráfico porque, tirando intenções vagas e programáticas, nunca foi exactamente uma indústria em si mesmo, mas uma espécie de mecanismo externo de gestão e administração de processos industriais (gráficas, distribuição, etc.) – no fundo, um serviço. Poder-se-ia argumentar que a institucionalização do design gráfico como uma disciplina autónoma faz até parte do próprio processo de desindustrialização. Se acontecer alguma reindustrialização, será do lado da procura por parte da indústria dos serviços prestados pelos designers. Não se pode dizer que a formação genérica, quase uma cultura geral, dada pela grande maioria das escolas impeça os futuros designers de trabalharam para qualquer cliente que seja, mas ajudaria talvez uma especialização maior, o que implica um conhecimento mais fiável do que se passa agora e do que as propostas do governo querem dizer (porque são muito vagas).


[1] Desde Never Say Never Again

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Ensino, Política

4 Responses

  1. Nuno Reigoto diz:

    Mário, se é verdade tudo o que aqui escreves, há algo que me confunde. Falas da indústria… qual indústria?
    Tirando a Alemanha, hoje somos uma Europa de serviços. O design não se vai reindustrializar quando o país e o continente continuam num acelerado processo de desindustrialização.

    • Apesar da desindustrialização ainda há indústria em Portugal. Ainda tem um peso na economia. O texto foi escrito assumindo isso e assumindo como base de trabalho que a ideia da reindustrialização do governo tem pernas para andar. Eu duvido. O texto funciona apenas como uma exposição de todas as contradições entre discursos e práticas no design – que enquanto se diz uma coisa se vai fazendo outra.

  2. Carlos diz:

    A implementação da Norma ISO9001 nas empresas é uma área a explorar pelos designers. A comunicação é um dos pontos essenciais para obtenção certificação e, no entanto, não tem a atenção devida. Como já referi num comentário há uns meses atrás, as empresas não sabem o que é design de comunicação. Por isso, continuam a comunicar de forma pouco eficaz com os seus colaboradores e clientes, o que se traduz numa perda de rendimento e fluidez dos processos muito considerável.

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