The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Realidade Aumentada

Ontem terminou Fringe. A última temporada não foi excelente, mas conseguiu encerrar a história com muito mais dignidade do que Lost, por exemplo. Em homenagem, partilhei no facebook a primeira coisa que escrevi sobre a série, sobre o seu design, em particular o modo como as suas legendas pairavam como grandes objectos entre as árvores ou as casas, reflectidas nas janelas, um efeito cuja estranheza se foi dissolvendo com o tempo. Nem me lembro se o usavam nos últimos episódios.

O genérico também não era mau, mudando subtilmente com o contexto, se o episódio acontecia no futuro, no passado ou num universo paralelo. Foi uma série muito rica e inventiva do ponto de vista gráfico, talvez das melhores dos últimos anos, o que não é dizer pouco, porque se vai tornando necessário trazer visualmente para dentro da narrativa conceitos complexos, doenças (House), autópsias e reconstituições de crimes (os diferentes CSIs), emails e mensagens instantâneas (Sherlock), etc.

Uma narrativa que se pretenda realista tem que lidar com isto tudo e muito mais (Youtubes, Skypes, Facebooks, Googles), não apenas as suas implicações éticas mas também como representá-los numa narrativa filmada. Quanto à ética (e política), temos The Good Wife, uma das melhores séries de advogados dos últimos anos. Quanto ao modo como representar visualmente toda esta nova realidade aumentada, ainda não há muitas convenções, mas elas consolidam-se  muito rapidamente – como mostrar um sms, como mostrar uma password, em letras muito grandes para que sejam filmáveis, etc. Ao fim de muito pouco tempo, tudo se torna comum e já nem se repara que um email no ecrã é muito diferente dos que mandamos no dia-a-dia.

De vez em quando, é claro, aparecem modos alternativos de representar tudo isto. No filme Rapace, de João Nicolau, há uma cena onde um personagem mostra uma música a outro pousando um cd sobre uma mesa de café entre eles. Os dois inclinam-se para a frente, mecanicamente, ao mesmo tempo, e  a música ouve-se na banda sonora. A encenação é performativa, artificial, mas não mais do que os modos mais comuns de resolver o problema. A estratégia de Nicolau chama a atenção para esta estranheza e lembra-nos, no mesmo momento, como muito das nossas vidas, às vezes até as partes mais íntimas, a família, a amizade, o amor, se precessam em formatos que há muito pouco tempo seriam mais estranhos e exóticos do que tudo o que poderíamos imaginar – ficção científica.

Um agradecimento ao Válter Santos, cujo comentário no facebook serviu de mote a este texto.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design

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