The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Julgar o livro pelo trailer

Foi devido a uma longa cadeia de infidelidades que comecei a ler The Gun Machine, de Warren Ellis. Há uns anos, acharia estranho ler um livro inteiramente no ecrã. Era fiel ao papel e à encadernação e a carregar o seu peso diariamente como uma marca, como um sinal ao mundo, enquanto o tentava percorrer. Gostava de escolher bem os livros e ainda tenho um certo orgulho nos que têm melhor design, um toque agradável, uma boa capa. Porque dizem mais sobre quem os usa do que uma t-shirt ou uma tatuagem. Porque é raro livrar-me de um, dando-o, vendendo-o, perdendo-o ou emprestando-o (nunca empresto um livro sem estar preparado para o perder). E se vão fazer parte da minha vida, é melhor que sejam bons. Agora, tenho preferido lê-los no ecrã, sempre que possível. Porque é mais prático. Porque viajo mais e a minha casa já não é um sítio tão certo. Essa é a primeira infidelidade. A principal.

A segunda, mais subtil, é ter começado a escolher e a comprar livros também no ecrã. Mesmo quando compro um livro real, de papel, muito antigo por vezes, habituei-me a comprá-lo na internet, onde a sua capa se torna num rectângulo acanhado de pixeis, ao qual se acrescenta no photoshop uma sombra ou uma sugestão de volume. A capa reduz-se a um ícone, que se clica para comprar, para abrir, para guardar.

Já não comprei o livro de Ellis pela capa, mas pelo trailer, um curto filme realizado pelo fotógrafo Clayton Cubbitt, mais ambiental do que literal. Lendo o livro – estou a gostar mas ainda não acabei –, percebe-se que não pretende resumir; não dá pistas; é uma pergunta que só a leitura responde. É publicitário no sentido mais primário: cria uma comichão que só o consumo do produto que anuncia pode aliviar. E funciona.

Funciona mais do que esta versão mais descritiva, a ilustração de um excerto:

Se um filme parece uma maneira arrevezada e comercial de promover um livro, é porque já nos esquecemos de como usar a capa de um livro para o publicitar já nos pareceu igualmente estranho. Jan Tschichold, por exemplo, aconselhava o leitor a deitar fora as dust covers. Serviam apenas para cativar ou informar o leitor, para embrulhar a verdadeira capa enquanto o livro não era comprado. Agora, são objectos de colecção e muitos dos designers mais conhecidos fazem-nas.

Talvez já se fale em algum lado do Chip Kidd ou dos Saul Bass dos trailers e livros. Talvez já se planeie um festival deste novo género. Não me espantava muito.

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Filed under: Crítica

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