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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Mercado Comum

Tenho-me dedicado a tentar perceber a história da União Europeia e o papel que a Alemanha teve nela. Mesmo uma investigação preliminar leva à conclusão que a Europa foi, desde a sua origem, uma construção neoliberal – as expressões “Mercado Comum” e “Comunidade Económica Europeia” sugerem isso mesmo, uma união onde a política deriva a sua legitimidade do mercado, e não o contrário. É claro que havia outros rumos possíveis, mas este era o Alemão e o de certa direita.

Contudo, apesar de toda a evidência, ainda parece contra-intuitiva a ideia de uma Europa originalmente neoliberal, onde a tendência antecede em décadas o neoliberalismo anglo-saxónico. Mesmo nesta altura tardia da crise, a Europa ainda é vista – enganadoramente – como um contraponto do capitalismo neoliberal anglo-saxónico, que só se tornou numa doutrina dominante relativamente tarde (nos anos 1980) por comparação com o neoliberalismo Alemão (final dos anos 1940). Já tinha escrito sobre isso, e tenho encontrado mais gente a pensar da mesma maneira, nomeadamente no Ladrões de Bicicletas (por exemplo aqui ou aqui).

Esta percepção deriva talvez da intensidade e fervor do neoliberalismo anglo-saxónico, que paradoxalmente lhe dá uma expressão política e pública mais visível que a do neoliberalismo Europeu, que se manifesta sobretudo através da intervenção técnica e burocrática – e portanto acaba por ser uma forma mais pura de ideologia de mercado que as versões inglesa e americana (que ainda sentem a necessidade de se manifestarem num plano de discussão política). É talvez por serem neoliberalismos jovens e triunfalistas que acabam por ser mais frágeis a uma discussão política que a doutrina europeia, mais tecnocrática e economicista.

O neoliberalismo anglo-saxónico surge como uma doutrina dominante no começo dos anos 80 como uma reacção a toda a instabilidade política do final dos anos 60 e 70, em particular os movimentos de direitos cívicos, que asseguraram novos direitos políticos a minorias raciais, sexuais, religiosas, às mulheres, etc. É precisamente quando a arena política se torna mais representativa que surge a necessidade por parte da direita conservadora de a desarmar, defendendo que ela deriva a sua legitimidade do mercado.

Assim, nos Estados Unidos a luta contra um sistema universal de saúde, por exemplo, é argumentada através da ideia neoliberal que não se deve impor a escolha de um serviço ao utente, mas na verdade significa dar a possibilidade a um branco pobre de não ser obrigado a frequentar o mesmo hospital que um negro ou um latino – no fundo, uma maneira de manter através de um discurso economicista a possibilidade de uma discriminação classista, racista e religiosa, dentro de um clima político onde isso já não é abertamente tolerado.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. Maquiavel diz:

    O último parágrafo está que é uma preciosidade, e resume bem o neoliberalismo!

    Só um pequeno pormenor, até para evitar confusöes: o sistema alemão é o ordoliberalismo (de “ordem”, sim, à boa maneira alemä).

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