The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ciclo de Cinema Engripado

Repo Man

Repo Man

Quando estou com gripe, o remédio costuma ser uma botija de água quente, um anti-gripe de oito em oito horas, banda desenhada e muitos filmes. Desta vez uma dose de nostalgia vista com novos olhos, olhos de crise.

Reality Bites (1994), de Ben Stiller, com quase vinte anos mas estranhamente actual. Gente sobrequalificada a sair da universidade para empregos mal pagos, a tentar proteger-se da realidade com ironia amarga e frases tiradas de maus programas de televisão que por sua vez as roubam de volta. Isto e muito mais. Foi nesta altura e sobre esta geração (a X e a sua) que David Foster Wallace escreveu o seu seminal ensaio sobre televisão e ironia.

A Scanner Darkly (2006), de Richard Linklater, talvez a melhor adaptação de um dos melhores livros de Philip K. Dick, uma semi-autobiografia sobre os seus anos da droga, levemente disfarçada de ficção-científica de antecipação porque achava que não a conseguiria publicar de outro modo. O futuro seria, ainda assim, muito parecido com isto.

Hackers (1995), Iain Softly. Uma tentativa muito fanhosa de representar a cultura Hacker usando maus gráficos 3D, dos anos em que a internet começava a popularizar-se.

The Rules of Atraction (2002), de Roger Avary. Adaptado de Brett Easton Ellis, um dos meus escritores mais surpreendentemente favoritos. O filme está cheio de tiques formais e narrativos, e de actores de séries e filmes juvenis a fazerem de conta que são mais interessantes do que são. O American Pie, mas com gente cruel a enganar-se a si mesma e aos outros, arrastando vozes off como se fossem balões intermináveis de pensamento. Como se indicassem algum pensamento, alguma consciência. Mesmo assim, surpreendentemente viciante.

Repo Man (1984), de Alex Cox. Um jovem punk de Los Angeles arranja um emprego a resgatar automóveis a donos que se atrasam nas prestações. Cada cena é um prodígio. O filme é uma obra-prima abjeccionista. A melhor prova: quando o vi  pela primeira vez não pensei muito nisso mas é um filme girando a volta dos Repo Men, gente que até os punks desprezavam, cobradores de dívidas em tempo de crise, a profissão mais baixa que se pode imaginar. O filme empresta-lhes um nihilismo decrépito e uma ética inconstante, baralhando expectativas e narrativa, misturando OVNIs, televangelistas, produtos de marca branca, assaltos a lojas de conveniência, rivalidades entre gangues de Repo Men e muito, muito mais.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. Susana Gaudêncio diz:

    se as gripes e os ciclos de cinema forem sempre assim, lá estarei, para o melhor e para o pior!

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