Joana Vasconcelos manda um velho cacilheiro para Veneza, forrado a azulejos e com um interior uterino. Nem vale a pena analisar demasiado, porque é tudo muito óbvio. Um cacilheiro. Para Veneza. Forrado a azulejos. Com um interior uterino. E podem-se fazer festas e beberetes no tombadilho. E vai ter uma loja da Vida Portuguesa. Parece uma lista de supermercado:
– Um object trouvé que lembre Portugal, a quem confunda Portugal com Lisboa (a Torre de Belém, tachos, garrafas, piscinas ao alto da EN1, um cacilheiro).
– Revestido a arte popular ( bordados, garrafas, tachos, azulejos).
– Possa ser usado como exemplo do turismo e indústria nacional ( bordados, garrafas, tachos, dá para fazer beberetes e concertos, serve de montra, etc.)*
– Tenha alguma relação irónica com o sítio onde vai estar (Cacilheiro. Veneza. Gôndolas?)
– Um estereótipo feminino óbvio¹ (não faz mal porque é feito por uma mulher).
E é esta a arte que merecemos. E para quem ainda tenha alguma dúvida do carácter ideológico, empresarial, parceria público-privada, disto tudo, Barreto Xavier esclarece que Vasconcelos “já é quase uma marca de Portugal em termos internacionais”, e que este projecto tem a capacidade de atrair outros apoios para além do Estado, “um modelo de trabalho que nos importa sinalizar”.²³
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1- Não, não é um pleonasmo.
2 – Segundo o Público de hoje. Ainda sem link. (Update: outro artigo no Público).
3 – E (poramordedeus) para quem acredita que achar isto uma pessegada é inveja, claro que é: de países com uma política cultural decente.
* Update: E (c0mo deixei passar isto?) é arte empresarial público-privada feita a partir de destroços de transportes públicos.