The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Muito para lá do cacilheiro

Ao longo da discussão do cacilheiro, argumentou-se (Alexandre Pomar, por exemplo, mas também uma ou outra pessoa nos comentários) que nada disto era ainda crítica porque ninguém tinha visto o objecto final.

A minha definição operativa de crítica, não apenas de arte, mas literária, musical ou cultural, é que se trata de uma especialização dentro da área mais geral da opinião – que inclui os comentários sobre política, religião, futebol, etc.

Associar crítica a opinião não costuma ser muito popular. Enquanto a crítica é vista como uma especialização – científica, profissional, académica –, a opinião é algo que qualquer um pode exercer. É só opinião, diz-se, cada um tem a sua.

Mas a opinião exercida em público, seja no café, seja na internet, seja num jornal ou na televisão, é crucial dentro de uma sociedade democrática. Se entendermos a democracia como o governo através da discussão pública, claro.

Assim, a crítica consiste na apresentação de argumentos dentro dessa discussão pública. Consiste não apenas em avaliar objectos mas também em produzir argumentação sobre eles e, também e sobretudo, em avaliar a qualidade da argumentação sobre eles, seja por outros críticos, seja pelos próprios artistas.

É verdade que muitos artistas recusam produzir um discurso dentro ou para além da sua obra. Mas tal não acontece, muito claramente, no caso de Joana Vasconcelos. A sua obra não se resume ao bordado ou ao cacilheiro mas alarga-se a toda a montagem, publicidade, entrevistas, etc. Se ela foi escolhida é em grande parte porque garante toda esta exposição mediática. É uma obra que pode ser capitalizada a partir do primeiro momento, garantindo fundos, patrocínios, cobertura, etc.

Mesmo assim, é possível à artista argumentar que a sua obra é só o barco e que só quando estiver pronto e a boiar em Veneza será possível uma opinião legítima, completa. É uma posição muito optimista. E é só uma posição, no meio de muitas outras possíveis.

O sítio onde começa e acaba a obra é perfeitamente discutível. O artista como fonte de autoridade suprema sobre a obra (no fundo, a sua autonomia) é uma ideia regularmente disputada, tanto na teoria como na prática, através do confronto com curadores, políticos, editores, críticos, público – tendo todos eles algo a dizer.

A obra (seja qual for) terá alguma pertinência enquanto houver alguém que se dê ao trabalho de discuti-la.

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Filed under: Arte, Autoria, Crítica, Cultura

2 Responses

  1. (Este comentário não é meu mas do Alexandre Pomar que por questões técnicas não o conseguiu publicar. Enviou-mo por mail e publico-o usando o meu nome como expediente para contornar o problema. Se alguém estiver a ser bloqueado sem razão aparente, por favor contacte-me.)

    A “definição operativa de crítica” como “especialização dentro da área mais geral da opinião” seria uma oportuna linha de controvérsia. Mas mais eficaz certamente será reflectir ainda sobre a problemática sobrevivência da ideia de autonomia do artista e da obra. Depois de Adorno e Greenberg, isto é, depois de um quadro ideológico em que às imposições dos totalitarismos e às mobilizações dos antifascismos, se sucediam, sobre os destroços da 2ª Guerra, as ameaças de uma 3ª, ou seja a Guerra Fria. A autonomia da arte (“l’art por l’art” ou “art for art’s sake”, que vinha do século XIX) não chegou ao séc. XXI. Mas o Zé Neves também apareceu a invocar tal fantasma. Porquê?

  2. Agora, eu mesmo, respondendo ao comentário anterior:

    Na verdade, não acredito de todo na autonomia do artista, nem sequer no século XIX. Era apenas uma posição estratégica dentro do campo da arte (como o Bourdieu propôs e bem n’As Regras da Arte). Dessa impossibilidade de autonomia, deriva que o próprio objecto de arte não tem limites definidos. Nem pelo artista, nem pelo crítico. Ou se calhar os seus limites são disputados pelos dois (e por muito mais gente).

    Resumindo: não há uma autonomia do artista, logo a crítica pode começar a ser exercida quando tal parecer pertinente ao crítico.

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