The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Prophet

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Sempre à procura de boa ficção científica, dei com Prophet, uma banda desenhada, a recuperação de um velho personagem da Image Comics, criado nos anos 90, quando estavam na moda heróis musculados e carrancudos, se possível versões mais agressivas de superheróis clássicos. Prophet, um sem-abrigo submetido nos anos 1930 a um tratamento experimental que lhe dava força e resistência, periodicamente congelado e descongelado para cumprir missões, não andava longe do Capitão América. Uma espécie de clone perfeitamente dispensável no meio de muitos outros.

Este novo Prophet é irreconhecível tanto no desenho como na escrita como no ambiente. Acontece num futuro muito distante, depois da decadência da humanidade, no meio de novos e estranhos ecossistemas e sociedades, de vestígios de um passado igualmente estranho. Prophet acorda de um longo sono com a missão de recuperar o império humano. Ao fim da primeira história, percebe-se que é apenas um entre muitos outros Prophets com uma missão semelhante. O clone torna-se muito literalmente num clone, ou mais exactamente numa multitude de clones, dispensáveis, mutiláveis, por vezes com objectivos antagónicos. É uma história seca e cruel para os seus protagonistas e para quem se mete no seu caminho.

O universo descrito é inesperado mas coerente, plausível nem tanto apesar da sua estranheza mas pelo pormenor com que essa estranheza nos é descrita. Prophet encontra uma civilização com um sistema de castas baseado no cheiro; junta-se a uma caravana que cavalga/obedece a três gigantescos insectos ligados entre si como carruagens, cada um alimentando-se dos excrementos do que vai à sua frente e deixando como resultado final uma matéria-prima cobiçada, vendida pelos sítios onde passa.

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Mas a maior invenção não são as ideias mas o modo como nos são apresentadas. A magia acontece aqui na interacção entre imagens e texto, linguagem, desenho e cor.

Fica-se com a ideia de uma história minimalista, lacónica, quando é na verdade povoada por palavras, por diagramas. As legendas descrevem-nos a história, mas não são exactamente uma narração. Às vezes esclarecem uma cena, levando-nos a olhar de novo as imagens, dando-lhes novos pormenores e significados. Outras vezes, puxam-nos para os pensamentos e as sensações do personagem. São secas. A sua poesia vem do que descrevem: mundos impossíveis, estranhas faunas e processos. Vem também do ritmo com que as frases se partem. Uma palavra isolada enfatiza. Quebra o fluxo de narração. Um conjunto de legendas curtas estabelece um ritmo.

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Não são uma voz interior, não são um monólogo, não impedem os ruídos ambientes, os diálogos curtos, o silêncio. Esta descrição seca consegue o prodígio de tornar este universo mais lacónico, mais exótico e insondável, enquanto nos diz tudo sobre ele, com pormenor, com humor, com ritmo.

As legendas às vezes reduzem-se literalmente a legendas, etiquetas inventariando as posses do herói, legendando o esquema de uma cena, de uma cidade, de um sistema solar. Mas nem aqui a história para. Há sons, movimento e acção nestes diagramas. A ideia que fica é a de um movimento inexorável que é o da viagem do protagonista, obedecendo sempre a um impulso, a uma missão a cumprir a todo o custo, gravada no seu próprio corpo, como se fosse um instinto.

E mesmo este protagonista, embora sempre com o mesmo nome e um aspecto identificável, muda também subtilmente, porque se tratam de clones do mesmo homem, engendrados cada um com a sua missão embutida. Este simples dispositivo torna o herói dispensável, mutilável, apenas um entre muitos, mais e menos mortal.

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Filed under: Banda Desenhada, Crítica

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