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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Investigar como sair daqui

Hoje em dia, nas instituições onde se ensinam e se aprendem artes toda a gente investiga, discute a investigação e, cada vez mais, lamenta a investigação. Escrevem-se papers, elaboram-se teses, organizam-se congressos. As novas regras de avaliação a isso obrigam. E cada vez mais gente lamenta o tempo que isto rouba. Eu já o fiz várias vezes aqui no blogue. Jorge Figueira, crítico de arquitectura do público e professor, fê-lo na sua coluna da semana passada.

Curiosamente quem se queixa mais, ou pelo menos mais visivelmente, são as pessoas que escrevem profissionalmente sobre a sua área. Este é um sistema que obriga quem não gosta de escrever a fazê-lo freneticamente e quem já escrevia a escrever muito mais do que já escreve. É um sistema que penaliza o que existe em nome do que deveria por decreto acontecer – que é como quem diz, corrige um erro penalizando mais quem não o pratica.

Uma das intenções é obrigar o professor universitário, independentemente da sua área, a produzir conhecimento científico, investigação exposta sob a forma de escrita, avaliada nacional ou internacionalmente, e que possa ser contabilizada nos cada vez mais impressionantes números da investigação científica feita em Portugal. Pouco importa a natureza dessa investigação desde que se possa chamar-lhe “científica”. Para isso, obriga-se gente que não escreve, nunca escreveu e nunca teve vontade de escrever a fazê-lo com toda a alegria que é habitualmente dedicada a preencher declarações de impostos e requerimentos. Porque na grande maioria dos casos um paper não passa disso: um requerimento para manter o emprego disfarçado de investigação científica. E pelo simples facto de milhares de pessoas o fazerem, burocracia e investigação já quase não se distinguem.

E atinge-se o ponto em que para criticar tudo isto nos aconselham a escrever um paper. É a petição de princípio clássica: só se pode criticar o sistema salvaguardando que aceitamos esse sistema e jogamos de acordo com as suas regras.

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Filed under: Crítica

3 Responses

  1. Susana Mendes Silva diz:

    Quando a prática artística é considerada investigação este problema não se coloca. Mas falta ainda bastante para isso em Portugal, nomeadamente debater-se nas universidades como se pode tornar esse outro paradigma numa realidade. A maioria dos doutoramentos em arte deixam muito a desejar por não apresentarem um modelo que permita uma resposta a este frenesim da escrita.

    • Não haveria nenhum problema se a prática artística fosse suficientemente considerada em si mesma para não ser preciso dizer que até pode ser investigação. Durante centenas de anos assim foi. Agora a arte tem de se disfarçar de ciência para poder ser aceite.

  2. É a “forma” académica, ao estilo “one size fits all”…
    Julgo que se a Arte não quiser ser exactamente Ciência terá de encontrar os seus mecanismos de avaliação e avaliadores, à medida da criação daquilo que é julgado ser a sua base de conhecimento.
    A Ciência outrora, também surgiu como “spin-off” da Filosofia.
    O dito Sistema, também somos nós. Se os agentes pró-burocracia não minarem completamente o caminho crítico, apenas para se manterem no seu posto, tudo é possível.
    O Sistema, ou a Base de Saber ou Conhecimento é aquilo que irá perdurar, para lá da nossa própria existência.

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