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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Miguel Gomes no Público

miguel Gomes

Hoje, o Público comemorou o seu aniversário convidando o realizador Miguel Gomes (Tabu) para  editor. O lado mais visível é a intervenção de crianças sobre todas as fotografias do jornal (menos os anúncios). Anjinhos e diabos sobre o ombro dos comentadores, corazõezinhos, óculos e chapéus de pirata. Funciona melhor do que eu estava à espera. Não faz de conta que é design, nem faz de conta que é ilustração. Leva aquilo numa direcção nova. O lado menos visível acontece ao nível do texto. Alguns artigos são prolongados numa curta peça de ficção, assinalando a passagem com uma capitular desenhada.

Segundo Gomes, na situação actual realidade e ficção parecem estar cada vez mais interligados, com uma vida pública cada vez mais encenada numa ficção contraditória. Assim, espera que o seu gesto “mesmo que modesto, possa ter propriedades antivirais e ajude a demarcar a diferença entre ‘má’ e ‘boa’ ficção. Porque há uma diferença substancial entre a ficcionalização da realidade — a mentira — e a ficção feita a partir da realidade. Contra os vírus, os antivírus.” A ideia é, por um dia, fazer-nos “sair a todos, jornalistas e leitores, da nossa zona de conforto feita de rotinas e hábitos. Tenho consciência de que incluir ficção num jornal ‘sério’ é algo tão pouco normal — e aparentemente sacrílego — que nos obriga a voltar a olhar fronteiras, zonas de contacto e dimensão ética desta coisa tão complexa de informar e de imaginar, de saber o que se passou e de especular sobre o que vai (ou não) se passar. Coisas diferentes umas das outras, mas que se alimentam e vão de par em par.”

Não é uma ideia nova, nem precisa de ser – no final dos anos setenta, por exemplo, em pleno Punk, os Bazooka faziam intervenções semelhantes no Liberation. Só precisa de fazer sentido no contexto onde é encenada. E, neste momento, faz todo o sentido. Tal como de resto faz sentido o próprio cinema de Gomes, oscilando entre o documentário e a ficção, a comédia e a estratégia.

Na última Nada escrevo um artigo que defende isso mesmo e que é uma crítica (e um elogio) muito melhor do que este post a um Público que ainda não tinha visto. Chama-se “Onde se argumenta que, na situação actual, não é exactamente a subversão que nos vai salvar mas uma indiferença àquilo que a separa da hierarquia.”

 

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Filed under: Crítica

One Response

  1. […] apenas a pressa e a economia. Uma das experiências mais interessantes dos últimos anos foi o Público dirigido por Miguel Gomes, onde notícia e ficção, desenho e ilustração se baralhavam, obrigando o leitor a pensar […]

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