The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Desculpem lá?

Há muito que tenho uma colecção de histórinhas deprimentes que ilustram como já muito pouca gente acha natural pagar-se a alguém pelo trabalho que faz – excluo aqui da noção de trabalho as tarefas de gestão, administração, direcção, chefia, comissariado, etc.

Um exemplo, já antigo. Há uns tempos houve uma polémica a propósito de um concurso proposto pela CP, que foi acusada pela Associação Portuguesa de Agências Publicitárias (APAP) de estar a promover o dumping por propor valores demasiado baixos. Trocaram-se cartas e argumentos. Do lado dos publicitários, dizia-se que o valor à hora oferecido nem dava para pagar uma mulher a dias. Do lado da CP, ironizava-se que, dada a quantia proposta, ser mulher a dias de um publicitário compensava.

Enfim, a certa altura Pedro Bidarra resolveu explicar à CP que o orçamento pedido por uma agência não se destinava apenas a pagar salários mas a cobrir o markup (essencialmente o lucro) e o overhead:

Overhead são os chamados custos operacionais, são aqueles custos que não são os salários da equipa envolvida na prestação do serviço que se está a prestar: custos como renda, amortizações, electricidade, salários com funções não directamente relacionadas com o serviço prestado mas imprescindíveis à sua prestação (as senhoras e senhores da limpeza, por exemplo). Este overhead, nas contas da Sofia Barros, secretária geral da APAP, era, salvo erro, de 60%; o que, a meu ver e baseado na experiência de ter durante 20 anos sido COO e vice-presidente de duas grandes agências pertencentes a um network cotado da NYSE e por isso obrigadas ao rigor das contas, é manifestamente optimista. O normal, no nosso negócio, é o overhead rondar os 100%. O que traria a remuneração da equipa para os  4,8€/hora. E depois ainda há a TSU que é preciso pagar.

Bidarra esqueceu-se de referir que o overhead, para além das senhoras e senhores da limpeza, cobre também os salários dos gestores, das chefias, dos CEOs e dos COOs. Mas – mais interessante – se o overhead normal ronda os 100%, a fatia de um orçamento destinada aos salários da equipa que faz o trabalho propriamente dito ronda os 0%.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. Pois… e vendido como “custo de oportunidade” – tens a oportunidade de trabalhar, porque os teus colegas ou emigraram ou vivem à conta dos pais…

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