The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Silêncios, alternativas e escolhas

Uma das interpretações do suposto silêncio da manifestação do 2 de Março é que esse silêncio se deve à incapacidade dos manifestantes apresentarem alternativas.¹ Ora não houve silêncio nenhum.

Quando se diz que não se gritaram palavras de ordem, isso não é simplesmente verdade. Houve um silêncio, mas de antecipação, porque se ia cantar o Grândola a uma hora combinada, ao pôr do Sol, todo o país em coro. No meu caso, senti, perto da hora marcada, uma antecipação próxima à do Ano Novo ou do fogo de artifício do S. João no Porto. Apressei-me  para chegar ao Terreiro do Paço, atalhando pela Rua Augusta, para poder cantar em frente ao palco à hora certa. O Grândola foi o slogan.

Parte da sua mensagem é a ligação ao 25 de Abril e aos seus valores, mas recentemente somou-se-lhe outro significado não menos importante: é aquilo que se canta contra este Governo, não apenas na intenção, mas cara a cara, sempre que um ministro, secretário ou presidente desfia em público as mesmas tretas, as mesmas banalidades. Cantou-se o Grândola em todo o país em solidariedade com as ocasiões onde um grupo necessariamente reduzido de gente emboscou um membro do Governo. O que se disse com esse gigantesco slogan foi: não podem argumentar que esses protestos foram casos isolados, porque nós todos concordamos com eles.

E quem diz que cantar o Grândola é um atentado à liberdade de expressão, quer provavelmente liberdade para dizer e fazer o que quiser sem qualquer resposta que faça diferença. É uma liberdade de expressão que assume muito explicitamente que ninguém tem autoridade para lhe responder ou para a pôr em causa de modo consequente. Cantar o Grândola contra o Governo, de encontro ao discurso mouco do Governo, instala uma resposta visível, inegável, um diálogo num espaço público onde ele não é de todo esperado. Excepto de quatro em quatro anos e reduzido a dois traços cruzados em X.

Ao contrário do que se insiste por aí, há alternativas às políticas do Governo e da Troika, alternativas que são ditas e repetidas diariamente. Não serem levadas a sério por um governo que vai falhando em toda a linha e por quem ainda o apoia não as torna menos sérias, antes pelo contrário. E, se este Governo se pode dar ao luxo de dizer que não há alternativas é porque muitos dos seus eleitores acreditaram estupidamente na sua promessa de que seria uma alternativa às próprias políticas que está agora a seguir. O problema não está – é claro; devia ser claro – na falta de alternativas mas em não nos deixarem escolhê-las.

1 – A crónica de José Manuel Fernandes no Público de hoje é apenas mais um exemplo previsível da tendência.

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Filed under: Crítica

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