The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Insiders

Há uns tempos alguém me dizia que não era seguro fazer comentário político sem conhecer os “meandros”, os “bastidores”. Havia sempre coisas que nós não podíamos conhecer, capazes de dar um sentido a todas as voltas e reviravoltas da política – ligações pessoais, inimizades, interesses. Uma decisão absurda ou injustiça podia revelar-se estratégica, uma medida aparentemente sensata um tiro no pé. Para o cidadão comum, a política é turva e incompreensível mas há sempre a suspeita optimista que tal acontece por conspiração, não por incompetência. Que aquela salgalhada tenha algum desígnio racional, mesmo que maligno.

É dessa diferença entre o que se vê de fora e o que se suspeita de dentro que vive gente como o Professor Marcelo, mediadores dedicados a revelar por detrás do óbvio a manobra, o esquema, a estratégia. No fundo, a dizer que onde o espectador vê isto na verdade se passa aquilo. E como muitos deles estão ligados a partidos, fica a suspeita, mesmo a certeza, que a própria interpretação é ela própria uma estratégia. É esse estatuto de insider supremo que Cavaco invoca quando diz que age nos bastidores em silêncio público e que sabe coisas que mais ninguém sabe.

Mas quando ouço os insiders falarem sobre as manifestações percebe-se que não sabem do que estão a falar. Falam de silêncio quando não houve silêncio. Falam de ausência de posição ou reivindicação quando as houve em abundância. Falam até de grandes manobras políticas da esquerda radical que tudo estariam a controlar. E tudo isto soa a delírio.

Só posso apresentar como prova parcial, subjectiva, as minhas próprias razões para sair à rua. Pedir a demissão de um governo que se engana e que engana sistematicamente, com consequências dramáticas. Que vê o desemprego como um dano colateral. Que vê o empobrecimento como uma virtude. Que cria monopólios sob o pretexto de que beneficiam o cidadão tornado consumidor. Por questões de justiça, de ética, de ambiente. De coerência: já houve governos que caíram por menos. Para cantar o Grândola contra um discurso surdo que não ouve, nem quer ouvir. Não é uma lista exaustiva, mas só pela sua existência demonstra que não saí em silêncio, que tenho as minhas posições, que não são coincidentes com as de muitos que saíram também, mas que são comuns em muito do que interessa.

Sei o que quero e sei ao que saí, e custa-me ver estes eventos serem reduzidos a caricaturas pelos supostos insiders. Já não me interessa saber ou vislumbrar o que se passa lá por dentro. Interessa-me que se saiba lá por dentro o que se passa aqui por fora.

Anúncios

Filed under: Crítica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: