The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Política e Cultura

Hoje no Público uma reflexão sobre o aniversário do CCB em três artigos. O mais interessante é o mais geral que defende que “o modelo do Grande Centro Cultural está esgotado”, e agora faz mais sentido a organização em rede de pequenos centros culturais. Segundo o artigo, em Portugal essa articulação não acontece, funcionando cada instituição em isolamento, até dentro da mesma cidade, a Culturgest alheada do CCB, etc.

No Porto, há uns anos discutiram-se questões semelhantes em relação a Serralves. Na altura (como agora), defendi que seria preferível dar apoio a pequenas e médias instituições culturais do que a grandes concentrações de recursos e meios. Mas a tendência por aqui é, sempre foi, acentuar assimetrias e desigualdades: preferir a arte de grandes dimensões, se possível organizada em moldes empresariais, à pequena produção; preferir o centralismo à dispersão da rede; preferir um individualismo paralisado e isolado pela competição à colaboração; preferir que o dinheiro fique pelo topo, ficando a parte de baixo da estrutura assegurada por trabalho precário pouco ou nada pago.

Claramente, uma cultura feita à medida do país. Aliás, espanta-me sempre que se diga que a precarização do trabalho ainda seja considerada um objectivo a atingir pelo Governo; nas artes, é uma realidade, e há muito tempo. Que nem é particularmente criticada pelos próprios artistas. Talvez por receio de hostilizarem as instituições de grandes dimensões, acaba por se acreditar numa autonomia do artista, uma postura que permite ir esgravatando em silêncio e em ambiguidade por entre as capelinhas e os quintaizinhos aguerridos da cultura nacional.

Repare-se que o protesto aberto contra este sistema acaba por vir sobretudo das artes que não conseguem sobreviver como um conjunto de criadores isolados: da música, do teatro, do cinema, com as artes plásticas em relativo silêncio. Lembro-me, por exemplo, ainda durante o Governo Sócrates, que os protestos contra os cortes dos orçamentos da cultura foram organizados no Porto pela gente do teatro. Curiosamente, na altura preparava-se uma grande exposição em Serralves dedicada à política na arte cujas consequências na política das artes foram mínimas, se não mesmo inexistentes.

É de uma extrema incoerência protestar contra a postura ideológica que nos tem governado, exigindo uma economia e uma política distintas, sem pedir também uma cultura cuja economia e política seja também distinta, e sem esperar que isso não se traduza em preferir outros formatos, outros géneros e outros protagonistas.

Anúncios

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Economia, Política, Prontuário da Crise

One Response

  1. §Não podia estar mais de acordo com a opinião expressa neste post – aliás, nos vários pontos focados neste post.
    Contudo, penso ser importante haver instituições com a dimensão e importância de Serralves.
    Primeiro, por terem capacidade de produzir ou trazer para o País exposições que, à partida, uma instituição de média ou pequena dimensão não poderiam produzir; por outro, porque através de uma política “estratégica” de compra (ou empréstimo) de obras de arte poderiam não só colocar o País num “circuito” internacional das Artes, como também criar ligações nesse circuito, com os artistas nacionais.
    Mas isto implica ter uma instituição activa e fundos suficientes para por este tipo de política em prática.

    Quanto à existência de estruturas pequenas ou médias penso serem essências para criar um trabalho de proximidade às populações ou comunidades onde se inserem.
    Os vários grupos de teatro fazem esse trabalho, mas relativamente às Artes Plásticas existe ainda uma separação.
    Não havendo praticamente coleccionadores particulares com dimensão para ter as suas colecções em exposição a um nível local, restam as colecções das grandes instituições.
    Por outro lado, há também dentro das chamadas “grandes instituições” que fazem um tipo de trabalho que poderia ser realizado por estruturas médias e mais distribuídas – sem ser exactamente de Lisboa ou Porto.
    A única forma de por este tipo de modelo em prática seria numa política diferente para o Mecenato.
    Actualmente, o Mecenato é pouco mais do que ter publicidade, a troco de benefícios fiscais. Isto é algo vergonhoso, mas que nenhum Governo se atreveu a mudar.
    Se o Mecenato passasse a ser uma forma de financiamento das pequenas e médias organizações, por parte dos mesmos que constituiram fundações com o seu nome, talvez houvesse espaço para outro tipo de actividades e isto poderia criar mais independência e atitude política, por parte dos artistas plásticos.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: