The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Assembleias

Há uns tempos o José Bártolo escreveu um texto onde incluía eventos como o Old School, as Conversas ou o Jornal Falado da Crítica, no que classificava como Crítica Cool. Eu diria antes que a marca comum destes projectos não é tanto serem um exercício de crítica, mas  algo que não é exactamente teatro, performance, conversa, tertúlia, exposição ou exibição – à falta de melhor, chamar-lhe-ei assembleia.

A assembleia é uma conversa ou performance ao vivo perante e/ou com a participação de uma plateia. Algumas são feitas para serem registadas em fotografia, vídeo ou audio, e eventualmente transcritas para uma publicação impressa. São divulgadas na internet e a sua logística é relativamente simples: um espaço, cadeiras, um computador com projector, às vezes um sistema de som.

Podem ser mais ou menos improvisadas, mais ou menos formais, submetidas a regras mais ou menos arbitrárias de duração ou formato, como os 20 slides a 2o segundos cada um da PechaKucha. Por parte dos participantes, não exigem muita preparação.

No fundo, trata-se de speed dating epistemológico, uma adaptação civil das estratégias usadas nos concursos de talentos como o Ídolos ou o Chuva de Estrelas, naquelas sessões onde jovens empreendedores vendem o seu peixe a potenciais investidores ou nas apresentações usadas  no ensino universitário para avaliar as quantidades cada vez maiores de alunos.

Surgem em parte da falta de tempo, da falta de dinheiro, da pressão cada vez maior para mostrar trabalho apesar da falta de dinheiro, mas também (mais positivamente) da reacção a uma certa secura cultural, a um ambiente onde jornais, teatros e cinemas fecham, e a televisão se torna irrelevante. Podem-se ver filmes, ler livros e ouvir música no computador, pode-se divulgar facilmente informação mas não chega; falta comunidade. E assim volta-se a modos mais primordiais de cultura, a coisas que se parecem – talvez – com o que havia antes de haver teatro, antes de haver até um espaço público.

É significativo que, nestes formatos, a oralidade assuma precedência sobre a palavra escrita, que se limita à transcrição. E que, nestas assembleias, se reencenem ao vivo, com a voz e com o corpo, jornais e revistas, que se troquem as voltas à maneira como se mostra cinema ou até se faz política. Quando se fala de democracia directa, por exemplo, fala-se de um conjunto de processos – como o Microfone Humano – que tornam a política em algo literalmente palpável, performativo.

Quando a esfera pública se vai encerrando, privatizando, austerizando, percebe-se que a necessidade de fazer parte de um público resiste; reaparece onde tinha sido cortada; faz parte do que faz de nós humanos.

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Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Política, Prontuário da Crise

2 Responses

  1. […] fora de Lisboa e do Porto é frequente encontrar eventos comunicados por bons cartazes; os projectos de base comunitária vão-se multiplicando; até o tão apregoado desinteresse pela escrita tem sido contrariado por […]

  2. […] não me espanta a pouca memória; é um problema inerente das culturas orais. Já agora, deixo aqui um link que escrevi sobre o Jornal Falado e outras iniciativas […]

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