The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

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Desde há muito que acredito que a arte não é de todo autónoma, mas depende das circunstâncias onde é produzida e reproduzida, dos meios que lhe são dedicados, da opinião que lhe é dedicada, etc. Quando se diz que a arte deve ser apreciada apenas pelas suas qualidades formais tal como são determinadas pelo artista, isso significa apenas que se prefere suspender toda a consciência dos meios necessários para criar e manter arte na nossa sociedade.

Cada obra que nos é apresentada (num museu, numa bienal, numa galeria de vão de escada, num cinema) é uma escolha entre muitas possíveis. A própria altura onde se pregou uma folha de sala foi decidida por alguém de olhos semicerrados e aprovada por outro alguém depois de um momento de reflexão. Cada uma destas decisões é um risco porque a competição é muita.

Roland Barthes dizia que em arte não há ruído; apenas significado. E é verdade. Mesmo o fascínio de certa arte pelo acaso, pelo acidente, é uma decisão — e há acasos mais fixes ou rigorosos do que outros.

Tudo isto para concluir que a escolha da Joana Vasconcelos para representar Portugal em Veneza não é acidental. O governo que a escolheu, fê-lo porque essa obra representa os seus valores melhor do que outras (já disse quais). E se muita gente do mundo da arte a consegue apoiar é através de um esforço de ironização que permite isolar a obra da artista do contexto onde é encenada, dos seus patronos e das suas políticas. Assim, onde o governo vê representação, há quem veja subversão. Mas se essa ironia extrema é possível, é porque a obra em si o permite.

A ironia é uma opção. Poder-se-ia escolher uma arte que fosse directa ou sincera, mas seria mais difícil, teria acesso a menos meios, menos apoios. E esta ironia é também uma lição, um programa: indica como ser bem sucedido por aqui. Mostra como se pode conviver com a incompetência, a corrupção, a sem-vergonhice durante uma vida inteira, sem lhe reagir e acreditando que a ironia de algum modo é suficiente para nos distanciar, para dizer que não é nada connosco. O chico-esperto, o pato bravo, não só é imune à ironia e ao sarcasmo como se alimenta dele. Não lhe faz mossa nenhuma.

E, como é evidente, há mais estratégias de sucesso para além da ironia: ser um artista o mais individual possível, um nome (e não um colectivo); fazer obras em grande escala (que não se confunda com a arte low cost tão em voga e que pode ser transportada numa mochila); arte que tenha hierarquias empresariais (em pirâmide) e não colaborativas. Notem que isto não se aplica apenas à Joana Vasconcelos. Aplica-se às barragens de Cabrita Reis, por exemplo.

Se digo isto tudo, é porque não é possível criticar este governo (ou os anteriores), sem criticar a arte e a cultura em geral, não apenas a oficial mas também aquela que pensa que não o é. Se um sistema ideológico se impõe não é apenas através de formatos populares aos quais a Cultura com C grande se escapa. Se um concurso de talentos monumentaliza a ideia do sucesso como um entrevista de emprego permanente, a arte (e o design e a literatura) também participam do processo. Promovendo o artista enquanto empresário, enquanto precário, enquanto bobo da corte, tolerado e tolerável.

Para conseguir uma sociedade melhor, será precisa optar por uma cultura que o permita.

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Filed under: Crítica

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