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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Os Limites do Empreendedorismo

Lembro-me perfeitamente do Prós e Contras onde apareceu o Miguel Gonçalves. Eu falava no Skype e até virei o computador para a televisão só para a pessoa do outro lado poder ouvir também aquilo. Na altura pareceu-me apenas uma versão mais pura e ainda mais estúpida do género de discurso que costumava aparecer na segunda parte do programa, uma espécie de catarse, de transe quase religioso. A plateia a confessar os seus problemas, as suas ânsias, aos quais se ia respondendo com um reafirmar da fé nos dogmas do empreendedorismo. Tipicamente, se um desempregado se queixava, alguém lhe perguntava porque não pedia uma linha de crédito e criava o seu próprio negócio.

As primeiras reacções que ouvi e li à intervenção de Miguel Gonçalves foram positivas. As pessoas concordavam com o essencial da mensagem e admiravam-lhe a energia, a sua confiança no “descaramento”. E o “Bater punho” com sotaque do Norte sugeria a inocência de quem está mais habituado a acreditar na acção do que nas palavras.

Escrevi um post ou dois sobre o assunto. O nome do segundo, “A Máquina de Fazer Crescer Relva”, até relacionava os dois Miguéis, o Relvas e o Gonçalves, mas muito sinceramente não estava à espera que algum dia os dois se juntassem – embora seja uma daquelas uniões inevitáveis em retrospectiva: um homem que tirou um curso em três segundos a contratar um homem que ganha a vida a gabar-se que mais valia ter tirado o curso em três segundos.

Mas o que me intrigou mais foi a quantidade de piadas que apareceram agora sobre um fenómeno que já é evidentemente uma piada há mais de um ano. Uma explicação possível é simples: Relvas, o ministro-anedota tem uma espécie de Toque de Merdas. Tudo onde toca se transforma numa anedota.

Outra razão, mais interessante, é que o discurso sobre o empreendedorismo se começou a tornar embaraçoso. Já não é tão fácil repeti-lo em voz alta, sobretudo as partes que asseguram que o desemprego pode ser uma oportunidade e que, se alguém falha, é por sua própria culpa e não da Europa, do Governo, do sítio onde nasceu, da sua família ou da sua classe.

Muito do discurso do design andava também à roda do empreendedorismo (ainda agora anda), uma mitologia que ajuda a explicar a necessidade dos estágios não-remunerados, a inevitabilidade dos recibos verdes, etc. Agora, suponho que o design vá precisar de arranjar discursos alternativos e práticas alternativas: que não se centrem na metodologia e identidade empresarial do designer; que sejam políticas, colaborativas, etc.

O mesmo se pode dizer da arte e da cultura em geral, onde a mesma fé no empreendedorismo se traduz em Joanas Vasconcelos e em arte aplicada a barragens.

Mas não é apenas a cultura de regime que assenta no empreendedorismo. O lado mais comum mas também mais invisível desta cultura do empreendedorismo é uma estranha literalização da ideia de criação de emprego. Onde não há condições reais para criar emprego, a criação de emprego torna-se numa estética, onde quanto mais estranho o negócio, mais empreendedor parece.

Se queremos realmente combater estas políticas não basta fazê-lo na rua, no terreno da política mas produzindo e promovendo formas de cultura e de sociedade que também o façam. Não basta protestar contra a austeridade, se esta se apoia na ideia que as funções do Estado, em particular as sociais, podem ser substituídas por empreendedorismo. Se há limites para a austeridade terá que os haver para a iniciativa privada.

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Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design, Política, Prontuário da Crise

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