Reparei pelas estatísticas que no A Barriga do Arquitecto se comentou um dos meus comentários à Joana vasconcelos, dizendo que eram ‘ataques de classe dirigidos à “política cultural do governo” para quem a artista é um mero dano colateral, ignorável e até desejável. Sobre as obras, invariavelmente, nada se diz.’ Concordo com tudo, claro, excepto com a parte de não ter dito nada sobre as obras – tanto quanto me lembro, falei disso no último parágrafo.
De resto, o meu argumento (em geral, e não apenas neste caso) é que toda a obra resulta de uma negociação entre um conjunto de actores, instituições, etc. Se, do ponto de vista formal, um trabalho é condicionado por estas negociações, os mais bem sucedidos e mais apoiados são aqueles que representam melhor o poder dominante.
Não me estranha que se ache este ponto de vista militante – porque é. Mas diverte-me bastante que se ache escárnio e mal dizer criticar um artista porque representa demasiado bem um mau Governo, isto num ambiente como o nosso, onde se cita regularmente gente como Rancière, Deleuze ou Foucault, a gente dos Cultural Studies, ou a crítica feminista — que fazem precisamente isto por princípio.
É neste género de crítica que me filio, e portanto não adianta dizerem-me que para fazer crítica séria é preciso separar obra de política.
(Note-se que nem sequer acho particularmente mal ser associado ao escárnio e mal dizer, que sinceramente este governo e a sua arte preferida – uma pessegada sem grande mérito — sem dúvida nenhuma merecem.)