The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A parte que arrasta pelo chão da crise

Trabalhando como eu na função pública, para o Estado, e tendo algum orgulho nisso, no serviço público, espanta-me a maneira como entre muitos dos meus colegas se vai reagindo a uma crise que assenta precisamente a sua massa, todo o seu peso, de esquina, sobre a função pública. Continua-se a fazer o mesmo que se fazia dantes, desculpando-se isso com o dever de cumprir as coisas que vêm de cima ou que, simplesmente, são assim e pronto, tem que ser.

Às vezes, invocam-se os alunos, que seriam os principais prejudicados de tomar uma atitude qualquer (como se estes não estivessem a ser prejudicados continuamente, por defeito e omissão).

A indignação torna-se difícil e até risível quando os defeitos dos Grandes são praticados em ponto pequeno mesmo ao nosso lado. O conflitozinho de interesse do designer que aproveita a sua posição docente para conseguir encomendas na instituição onde dá aulas; do estágio curricular em empresas ou projectos que nem sequer se dão ao trabalho de disfarçar que recorrem a isso porque não têm dinheiro para pagar a um designer; os concursos abandalhados ou simplesmente inexistentes; ir para a rua gritar por democracia, quando desde há anos se vai a reuniões onde se lamenta o excesso de pessoas a tomar decisões, os mandatos curtos, a simples discussão, etc.

E, na verdade, isto já nem me parece o mais grave. Desde há dezenas de anos que se promete ao ensino superior dinheiro e autonomia se for mais empreendedor, se conseguir fundos próprios, e por aí adiante. E desde as mesmas dezenas de anos que todas essas promessas são atiradas pela janela. Quanto mais fundos próprios se conseguem, mais fundos são cortados. E assim sucessivamente.

Por esta altura, um daqueles cães de Pavlov já tinha aprendido a lição.

Mas o nosso ensino superior é em grande medida uma escola de conformismo, ou mais exactamente de desenrascanço. Porque o desenrascanço consiste na capacidade de ultrapassar um problema sem  resolver as condições que lhe deram origem. E o nosso ensino, burocrático ao extremo, sobrelotado, sub-financiado sistematicamente, é perfeito para isso, para colocar todo o género de obstáculos ridículos no caminho de quem o frequenta. E, no final, ainda tem a distinta lata, como último teste, de querer aparecer na fotografia quando alguém tem a sorte improvável de conseguir mais do que simplesmente sobreviver-lhe.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. […] Acatar ordens injustas é ser cúmplice. (E aqui sobre a mesma coisa no ensino superior) […]

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