The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ocupação de Tempos Livres

Nos últimos tempos tenho ouvido cada vez mais gente, alunos e até professores, queixar-se que o ensino não deixa tempo para mais nada. Bolonha veio tornar os cursos mais rápidos, mas também mais fragmentados de cadeiras, eventos, matrículas, etc. E para além do tempo de aulas, o sistema ainda contabiliza o modo como alunos e professores usam as suas horas livres. Horas de aulas, horas de contacto ocupando desejavelmente quase todo o tempo – sobram ainda as horas de dormir ou de comer. O efeito é ao mesmo tempo de superficialidade (cadeiras rápidas, variadas e sobrelotadas) e de asfixia. No fim  o que fica é multitasking e desenrascanço, qualidades úteis para sobreviver na nossa cultura. Mas será que essa cultura vale a pena?

Os objectos de arte, design, cinema ou literatura mais interessantes que tenho visto lidam com esta fragmentação cultural de modo inventivo. Vão-se construindo a partir de oportunidades, estilhaços, momentos, mudando entre o documentário, a ficção, a performance, a edição, o comissariado, conforme seja necessário. Outro dia ouvi Miguel Gomes dizer que o cinema é negociação, salvo erro com a realidade. E isso neste momento é talvez a melhor descrição de todas as artes que se fazem por aqui. Admiro os objectos que conseguem ser interessantes neste contexto, mas não consigo gostar do contexto.

É uma sociedade onde não há dinheiro para pagar a quase ninguém mas mesmo o trabalho não pago, especulativo, a própria aprendizagem, mas também o tempo livre é esmiuçado e contabilizado em créditos, no fundo um sistema monetário. Tem-se discutido o que se vai fazer numa sociedade onde deixa de haver trabalho (a propósito de Anselm Jappe). Mas curiosamente onde não há trabalho  há sempre muito que fazer e muito pouco dinheiro para o pagar, e bastante lucro com tudo isso – o que dá a entender que o problema não é tanto a automatização ou o excesso de gente no mercado de trabalho, mas sobretudo um problema de distribuição da riqueza.

O direito ao trabalho não é simplesmente o direito a andar muito ocupado, mas consiste no direito a ser pago por isso e no direito a que esse trabalho tenha limites definidos (nas tarefas que se faz e nos horários em que são feitas). O ensino neste momento prepara as pessoas para estarem ocupadas a tempo inteiro, mas cada vez menos para trabalharem.

Mark Twain dizia que o ensino nunca devia interferir demasiado na educação das pessoas. A liberdade implícita nesta boca é preciosa, cada vez mais rara.

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Filed under: Crítica

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