The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

As coisas mudam

Assiste-se à discussão da crise nos jornais e na televisão e parece que as coisas estão a mudar, que está tudo mais político, mais crítico e mais interventivo, mas acaba por ser uma ilusão. Só se tornou quotidiano o acto de chamar nomes ao Presidente ou rir de mais uma previsão falhada do Ministro das Finanças ou encolher os ombros perante as tretas pomposas do Primeiro Ministro. Mas é como ver futebol, um entusiasmo sincero mas à distância. A maioria das pessoas acredita lá no fundo que a crise vai parar antes de lhe chegar aos tornozelos e, mesmo que chegue, acredita que com sorte pode voltar tudo a ser o que era. Não me parece. O design gráfico já vai mudando. Os ateliers intermédios dependiam em grande medida de encomendas de entidades mais ou menos públicas e de eventos culturais apoiados pelo Estado. Era uma espécie de função pública externa em regime freelance. Cortando-se nos dinheiros públicos, corta-se nos rendimentos destes ateliers. E já se assiste a algumas reacções: a reivindicação de concursos públicos com preços dignos ou até simplesmente de concursos públicos, quando o dinheiro já falta, já nem existe. Em alternativa, muitos designers dedicam-se a trabalhar com o pequeno empreendorismo, gurmê, alternativo, de hostel, de bar, de café, de concerto, de livraria. Às vezes, nem se trata de trabalhar para clientes mas de criar e manter a identidade do próprio negócio. Volta-se ao design total dos anos 50 e 60 mas numa escala de vão de escada e pelas mesmas razões: onde não há dinheiro não compensa a especialização.

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Feriados

Na semana passada, cancelei uma entrega dos meus alunos de história marcada para amanhã, porque o calendário da escola ainda assinalava o Corpo de Deus como sendo um feriado. Tudo bem. É menos uma dúzia de trabalhos para ler. Entretanto também descobri que o semestre das universidades americanas (o nosso suposto exemplo) é muito mais curto que o nosso: 17 semanas contra as nossas 20. E também têm mais feriados. Têm um que devíamos importar para cá (porque ia ser um sucesso): o Dia do Presidente.

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Arquitectura Popular em Portugal (1961)

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Há poucas maneiras de encerrar melhor um fim de semana do que encontrar, ao voltar ao Porto, uma encomenda com um daqueles livros que se procura desde há anos: os dois volumes da Arquitectura Popular em Portugal, na sua primeira edição, a do Sindicato Nacional dos Arquitectos, de 1961. É um livro importante, porque marca (e provoca) de certo modo o início do fim da própria arquitectura popular portuguesa. Também é uma daquelas edições em fascículos (tenho alguns deste livro, ainda por encadernar). A fotografia da capa do primeiro volume é, para mim, uma das preferidas do modernismo português: enquadramento, textura e ritmo. Tão simples.

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55 x 40 x 20

Há dez anos, o Porto era uma cidade culturalmente desiludida. Quando acabou o Porto Capital da Cultura, em 2001, ficou com a Casa da Música, com o Metro, com avenidas e praças renovadas mas, com Rui Rio na câmara, a cultura tinha esfriado. Havia ranchos folclóricos; haviam corridas de automóveis; em cada praça, expunha-se dentro de uma caixa transparente um automóvel antigo, como um carrinho de brincar, ainda embalado. Antes, durante e depois do Porto 2001, foram aparecendo pequenos espaços, que acabariam por, na sua grande maioria, desaparecer. Começaram como colectividades e terminaram quando os seus organizadores prosseguiram carreiras individuais. Eram sítios onde se expunha todo o género de objectos e ideias, onde se faziam concertos, onde se estava, simplesmente, de cerveja na mão. Eram casas, quase devolutas, ateliers, lojas, salas, cozinhas, às vezes varandas.

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A Crise chega ao Centro

Esta semana em Lisboa tive, pela primeira vez, a mesma sensação de crise que já tinha tido no Porto há uns dois anos: vários designers a falarem de clientes perdidos e a pasmarem-se por uma das gráficas a que toda a gente ia ter fechado. A crise chega lentamente ao centro.

No Porto, os ateliers viraram-se para negócios alternativos, comida, lojas, galerias. Como será aqui por Lisboa?

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Conferências

Gostei bastante de participar ontem no seminário da Unipop. Por coincidência foi no auditório das Belas Artes de Lisboa, no mesmo sítio onde dei a minha primeira conferência, há uns quinze anos atrás. Na altura, ainda usei slides slides e não um slideshow – foi a primeira e última vez que o fiz. Agora uso o Keynote a correr no Mac, que prefiro ao Powerpoint. Já usei o iPad, mas não gosto muito porque o adaptador tende a cair. Prefiro apresentações descontraídas (sem ler e sem notas). Os slides em si servem-me como deixas, mas não se limitam a isso. Leia o resto deste artigo »

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Unipop

ImagemVou estar aqui amanhã, a debater o trabalho da Joana Vasconcelos. Fica aqui o texto de apresentação e o link:

Nas últimas décadas, várias manifestações artísticas têm sido designadas sob o nome de pop. Citando a ideia de popular, mas conferindo-lhe já um alcance que só é possível compreender no quadro da proliferação dos media e da extensão das relações mercantis a novos domínios da vida e da sociedade, a pop não tem sido propriamente um objecto de reflexão, ainda que sirva de pretexto para debates e polémicas circunstanciais, da atenção prestada à recente exposição «David Bowie is», a decorrer em Londres, às polémicas em torno das obras de Joana Vasconcelos, recentemente avivadas em Portugal. Estas polémicas convidam-nos a situar a pop num plano mais alargado de discussão, que contemple a análise das transformações estéticas, e a sua história, e dos processos de massificação da cultura. O presente seminário procurará, ao longo de um dia, promover o encontro entre a pop e o pensamento crítico contemporâneo (convocando o contributo de autores como Walter Benjamin, Marshall MacLuhan ou Jacques Rancière, entre outros) e explorar estudos de casos (que vão da música ao cinema, passando pelas artes plásticas). A Unipop e o CIEBA – Centro de Investigação e de Estudos em Belas-Artes (Universidade de Lisboa) procuram assim abrir espaço a uma discussão em torno da pop que contrarie a desconsideração a que o tema sido muitas vezes votado no campo académico, onde persistem as divisões entre alta e baixa cultura, erudita e popular, moderna e tradicional ou nacional e global; simultaneamente, procuramos possibilitar um debate crítico sobre a pop e suas manifestações que está tantas vezes ausente do espaço mediático actual. A encerrar o seminário, será lançado o número 3 da revista Imprópria, com um dossier de textos em torno da pop, da autoria de Marcos Cardão, Luís Trindade e Greil Marcus. Mais info em www.unipop.info.

 

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Rendas só mais logo

E entretanto o concurso do logo da Flup foi anulado por… (rufar de tambores) … falta de dinheiro (pa-tuntch).

 

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Confundir Estágios com Concursos e Vice-Versa

O concurso do logo da Flup chega ao Ganhem Vergonha onde é usado como exemplo da prática de disfarçar uma entrevista de emprego de desafio ou concurso:

“Desta vez, queremos falar sobre um comportamento – infelizmente cada vez mais comum – assumido no recrutamento de trabalhadores em áreas como o Design, a Comunicação, o Jornalismo ou a Tradução, entre outras. Muitos empregadores, quer em anúncios quer nas respostas às candidaturas a essas ofertas, optam por lançar ‘desafios’ criativos ou concursos aos candidatos. Um poster,  um logótipo, uma tradução de um texto, um guião, uma reportagem. São muitos os formatos espalhados pela Internet e promovidos por privados, instituições públicas e até por universidades.” Leia o resto deste artigo »

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Corolário: Crenças e Coerências

Acredito que esta é uma crise de procura. Ou seja, acredito que não adianta dar incentivos, benesses ou crédito a empresas, porque elas não têm a quem vender os seus produtos. Ninguém compra porque a) está desempregado b) está com cada vez menos salário c) está precário d) está tudo isto e muito mais (ou muito menos). Logo, acredito que não se sai desta crise baixando ainda mais os salários e precarizando ainda mais o emprego. Antes pelo contrário. E portanto acredito que pagar salários decentes é mais importante que oferecer contratos generosos a empresas (que pelo que nos dizem as estatísticas, pagam cada vez menos aos seus trabalhadores, às vezes só uma sopinha; ou só “educação” no caso dos estágios). Se acredito nisto para a sociedade em geral, seria bastante embaraçoso deixar essa minha crença à porta quando falo de design – digo eu.

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Rendidos à Renda

Tem-se comentado muito a dependência da economia portuguesa do Estado (o que nem sequer é uma crítica justa, apenas uma versão local, provinciana, de um discurso mais alargado contra a intervenção do Estado). Contudo este discurso contra o Estado tem as suas contradições.

Embora se argumente que a privatização de serviços públicos se destina a melhorar a sua qualidade e a tornar mais competitivos os seus preços, na grande maioria dos casos nada disso acontece. Em geral, o serviço fica pior e mais caro. Isto acontece em parte porque, abertas as fronteiras à concorrência internacional, muita gente começou a apostar em negócios que consigam resistir a essa concorrência. Os serviços públicos, pela sua ligação a um território e a uma população são um desses negócios seguros – a chamada “renda”.

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O Ensino Público e os seus Logos

Nos últimos dias tenho discutido e assistido à discussão sobre o concurso do logótipo para a Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Alguns designers e professores da área escreveram uma carta expressando a sua indignação pelo baixo valor do prémio a concurso, pelo júri não ser constituído por designers e pelo concurso ser aberto a gente sem formação em design.

Respeito a sua posição, mas não é a minha. Nenhuma destas questões me desperta qualquer indignação. Leia o resto deste artigo »

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O Design como Secretariado

Já tinha falado muito por aqui (e por outros lados) que o design se tinha transformado desde os anos noventa numa espécie de “secretariado gráfico”. Com isso queria referir-me a designers que eram contratados por firmas de outros ramos para fazer uma espécie de design de expediente (desde actualizar o site a fazer pequenos trabalhos que não justificam a ida a uma gráfica). Falava de designers a título individual mas é cada vez mais evidente que o mesmo acontece com firmas de grande dimensão, contratadas como uma espécie de “departamento externo de design e produção”. Leia o resto deste artigo »

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Preço Mínimo vs Salário Mínimo no Design

Já o digo desde há uns anos valentes, mas nunca me preocupou a necessidade de estabelecer uma tabela obrigatória de preços para o design. Não acho útil. Antes pelo contrário, é má ideia. Mais útil seria fazer uma tabela de salários para o design. Ou seja, considero mais importante que quando alguém contrata um designer para trabalhar numa empresa lhe pague decentemente do que assegurar que um designer (ou uma empresa de design) cobra sempre os seus serviços acima de um determinado valor. Leia o resto deste artigo »

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O Designer como Funcionário

Sempre tive um problema com os concursos de design, que entendo sobretudo como o modo preferencial¹ de uma instituição pública contratar serviços de design. Ou, visto do outro lado da questão, o concurso é o mecanismo através do qual o designer se relaciona com o Estado enquanto cliente. E, em Portugal, o Estado é o cliente de sonho. Percebe-se isso bem através da maneira como os objectivos do Centro Português de Design mudaram ao longo da sua história (na prática, embora não no papel). Começou por servir de ponte entre os designers e a indústria e acabou a regular concursos de design. Leia o resto deste artigo »

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A Arte de Picar o Ponto

A ler England’s Dreaming, de Jon Savage sobre o Punk em geral, usando os Sex Pistols como mote; percebe-se o papel da imprensa neste movimento. Havia em Inglaterra na altura uma pequena esquadrilha de jornais e revistas dedicados à música e às chamadas Youth Cultures. Todos os meses (e até semanas) era preciso arranjar recheio para este papel todo. A competição entre os jornalistas era muita. Havia assim interesse em descobrir a próxima novidade, nem que fosse preciso inventá-la. Leia o resto deste artigo »

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18 de Maio

ian curtis 1

‘Uma completa desmotivação, uma forma elegante de referir uma invisível greve de zelo, atravessa o Estado e a sociedade, resultado da perda de tónus social que vem do empobrecimento. Funcionários públicos aviltados que quereriam fazer greve, mas sabem que vão ser as “chefias” a decidir quem vai para o Sistema de Requalificação da Administração Pública, nome orwelliano para o despedimento.’

Pacheco Pereira no Público de hoje. Exactamente 33 anos depois do suicídio de Ian Curtis, funcionário público num centro de emprego e vocalista dos Joy Division.

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Cinema Português e Banda Desenhada Punk, New Wave

chaland

Há diferenças óbvias, claro, mas ocorreu-me que certas bandas desenhadas do começo da década de 1980 têm bastantes semelhanças com o cinema de Miguel Gomes ou de João Nicolau – uma indefinição entre documentário e ficção, e entre géneros em geral, aventura, filme de piratas, ficção científica, musical, etc. Falo de coisas como Locas, de Jaime Hernandez ou do trabalho de Yves Chaland. No primeiro caso, temos uma banda desenhada sobre a cena punk da West Coast que alterna o realismo com a ficção científica, os super-heróis e o fantástico. No segundo caso, temos uma reconstrução da banda desenhada franco-belga dos anos 1940-50, embora com detalhes que a tornam absurda como num sonho – veja-se O Cometa de Cartago, por exemplo. Leia o resto deste artigo »

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Concurso

São só quinhentos euros e o prazo é curto, mas até gostava de ver algum design (e tipografia) decentes no sítio onde trabalho (regulamento).

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“Notícias”

Hoje o Público saí-se com uma coisa intitulada “Alemanha junta-se ao coro de críticas contra a austeridade das troikas”, com a fotografia de uma manif a sugerir que as vozes se levantam. Depois vê-se que a foto é de uma manifestação aqui em Portugal. A seguir lê-se o artigo, e verifica-se que tanto o título como o artigo são uma treta.

Diz-se que já não é só na Grécia, Irlanda ou Portugal que se critica a austeridade. Referem-se vagamente responsáveis alemães não-identificados que se demarcam da ideia, porque o termo “tem em alemão uma conotação particularmente negativa de sofrimento extremo, o que os responsáveis em Berlim garantem que está longe de ser o que defendem.”

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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