The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Toda a citação é descuidada

A sensação que tinha quando estudava design, há quase vinte anos era uma de silêncio ou talvez de asfixia. Em todo o curso, e na altura eram pelo menos cinco anos, eram raras as ocasiões em que podia ler e até falar sobre design. É claro que havia discurso e vocabulário: a maneira correcta de pronunciar logotipo (ou logótipo?); a diferença entre serifa e patilha; entre marca e logomarca. Também se discutia o design feito por amadores, especialmente arquitectos e pintores.

Mas isso era conversa a preencher os momentos onde se trabalhava com afinco em logotipos esquissados a lápis e finalizados a guache. Em todo o curso não havia uma cadeira de história do design, por exemplo. Tínhamos três ou quatro cadeiras de história de arte onde era bastante raro chegar-se perto do século XX (o ano era sempre curto e o programa derrapava).

Na altura, o curso de design era uma especialização das artes plásticas com uma base teórica comum. E mesmo que fosse um curso de design construído de raiz ainda havia a herança do modernismo com a sua negação da tradição. Na Bauhaus não havia cadeira de história, tanto quanto sei. Mas, entretanto, o modernismo tinha-se tornado também ele uma tradição: era ensinado a pessoas que nunca tinham passado por ele – talvez a definição mais pragmática de pós-modernismo.

Agora, tornou-se bastante importante discutir o design. Estamos em crise. Há poucos recursos. Pouco tempo. Gastar dinheiro a aprender e a ensinar o que quer que seja tornou-se um problema político, na medida em que precisa de ser argumentado (e por vezes nem isso chega). Precisa de competir com outras áreas, outras formas possíveis de empregar tempo e dinheiro.

O pior dos argumentos é o da tradição. Durante esta crise, todos os dias desaparece uma tradição qualquer, para sempre ou substituída por uma coisa nova: desde linhas de comboios até cinemas, passando por feiras do livro e livrarias. Não serão os pergaminhos do design que o irão salvar, quando não salvam ninguém.

Não significa que a história já não faça sentido, mas o seu uso deve ser estratégico e crítico. Já não deve ser uma carta de referências, a filiar um objecto, estilo ou pessoa numa determinada família ou escola. Na maioria dos casos, isso não passa de uma maneira de imobilizar um objecto, de tentar determinar com toda a certeza a maneira como deve ser interpretado. De dizer que, quando se cita alguém, é preciso estar atento a todas as implicações possíveis, à biografia do seu autor, do outro autor que escreveu um livro sobre isso, do filme que também tem esse título. É um peso terrível, que torna toda a arte e toda a crítica numa lenga-lenga genealógica, que lembra aquelas passagens da biblía: “Abrão filho de Jeremias, que gerou Elias, e conheceu Matias…”

Benjamin dizia que a fotografia tirava a arte do domínio da tradição. Uma fotografia recortava um instante e colava-o em outro sítio qualquer. A arte perdia o seu aqui e agora, o seu contexto – aquilo que Benjamin chamava a aura. E isso não era mau: explicava coisas como a montagem no cinema, a colagem ou o ready-made nas artes. Mas a tradição aparece onde menos se espera e neste momento é comum interpretar-se o próprio texto de Benjamin como uma defesa da aura, que é como quem diz da tradição. E já não é possível citar Benjamin sem o fazer com devido cuidado (quando a lição do seu texto é que não é possível citar de outro modo que não seja descuidado).

Anúncios

Filed under: Crítica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: