The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Arte de Fazer Inveja e Chorar Por Menos

No Público de hoje, Joana Vasconcelos responde às críticas que lhe são feitas. Ou, mais concretamente, responde às críticas que gostaria que lhe tivessem feito. Diz:

“Estes projectos mostram que, mesmo com o esforço do Estado, que tem pouca verba, se pode conseguir com os privados concluir projectos de grande escala no campo da arte. Isso acontece internacionalmente, mas em Portugal não há ainda essa cultura.”

Ora dizer isto é literalmente defender que a melhor política é concentrar o esforço do Estado e a sua pouca verba (durante uma crise) num projecto individual de grande escala, ainda por cima numa espécie de “arte gurmê”. Quando se trata de financiar meia dúzia de companhias de teatro ou um ou dois filmes, estamos em crise; quando se trata de mandar para Veneza um cacilheiro convertido em quiosque de pastéis de nata ou financiar arte palaciana, já é uma boa estratégia.

Já agora, nunca foi difícil financiar em Portugal projectos de grande escala (lembrem-se das expos, euros, etc.). Ou de pequena escala (que se sustentam a si mesmos sem os tais apoios). A dificuldade sempre foi criar e manter estruturas intermédias – aquelas que toda a gente diz que seriam óptimas, excepto quando se trata de as fazer, financiar, ou o que quer que seja.

É uma estética da desigualdade, que representa na perfeição uma sociedade cada vez mais dividida entre o muito alto e o muito baixo. É significativo que se atribua à inveja as críticas que se faz a estes projectos megalómanos, porque é uma arte feita para embasbacar, para provocar inveja. E ainda se chama inovação e pioneirismo ao acto de esbanjar rios de dinheiro durante uma crise em “pão e circo”.

E é preciso alguma lata para dizer que “Ainda existe a ideia do artista dependente do Estado e este tipo de dinâmicas mostram que isso não tem de ser uma fatalidade” quando se recebeu um monte de dinheiro do tal Estado, ou de partes recentemente privatizadas dele, como a EDP, por exemplo.

Na verdade, não se trata de comparar o envolvimento de privados a “vender a alma ao diabo”, como diz a artista, mas de não apreciar uma arte que, se escandaliza e se inova, é porque representa demasiado bem a treta do Governo que a patrocina – pregar a miséria enquanto apoia o luxo, etc.

Infelizmente, continua a ser a arte que merecemos. Se quisermos melhor, teremos de produzir uma sociedade melhor que o mereça.

Anúncios

Filed under: Crítica

One Response

  1. mais uma pérola da joaninha…. é triste…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: