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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Comissariado, Crítica, Arte e Política

Reparem: enquanto a arte luta para se repolitizar (sem grande sucesso), a crítica e a teoria tornaram-se extremamente politizadas (Negri, Rancière, pós-fordismo, a arte como empreendorismo e precariado são assuntos quase banais) e o comissariado assume-se como a nova crítica (diz Gadanho, e como está no Moma deve ser verdade).

É como olhar para três cegos a apalparem um elefante e a dizerem sucessivamente que a política é interessante mas não de forma panfletária, que até gostava de ser mais político mas o editor não deixa, que se os outros cegos tivessem visto a exposição que comissariou há uns anos sobre o assunto iam perceber que já era altura de deixarem aquele crocodilo em paz.

Uma solução possível (talvez melhor) seria pôr em causa este sistema de especializações.

A crítica praticamente desapareceu. Nos jornais e revistas, o seu ambiente natural, de onde boa parte dos críticos sai, tornando-se comissários. E mesmo dentro da universidade onde a crítica se transformou em investigação, papers, teses ou relatórios, feitos tanto por artistas como por comissários em formação. O resultado disto é um discurso sobre a arte que se destina de algum modo a organizá-la, tanto enquanto esforço pessoal (no caso do artista) como enquanto tarefa administrativa (no do comissário). Mesmo a crítica enquanto tentativa de revelar interminavelmente o lado pós-fordista, laboral e precário da arte, acaba apenas por sublinhar o óbvio sem contudo o conseguir resolver (para isso precisaria de ser posta em prática por artistas e comissários).

O artista tornou-se num prestador de serviços, num criador de conteúdos, que produz objectos, experiências e um discurso sobre eles que demonstre a sua compatibilidade (ou não) com as intenções do comissário.

O comissário acaba por ser a peça central disto tudo, uma posição recente, que até certo ponto corresponde a uma estetização crescente da desvalorização do trabalho em favor da sua gestão. Acaba por ser uma forma de arte adequada a uma sociedade onde a política quase desaparece em função da gestão ou da economia.

O próprio acto de comissariar uma exposição sobre arte política, por exemplo, torna-se num modo de demonstrar que as instituições da arte podem perfeitamente encaixar, sem mossa, mesmo a nível permanente, objectos radicais, anti-institucionais, sem que isso faça o mínimo de diferença. Porque a política do comissariado é, em si mesma, uma despolitização.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. Marco diz:

    Subscrevo inteiramente. Os comissários tornaram a arte demasiado escolar. Dão tpcs aos artistas e premeiam os melhor comportados. Tudo se tornou muito aborrecido, inoperante e inócuo, nos últimos anos. Acho que já nem os artistas têm paciência para ver exposições.

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