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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Proteger tudo o que é trabalho

Estava para escrever sobre o concurso da Tetra Pak, “Proteger Tudo o Que é Bom”, onde se davam 750 euros de prémio mais a possibilidade de um estágio não remunerado de três meses. E, como seria de esperar, a votação final é feita através de likes (depois de uma pré-selecção por um júri).

Não havia muito a dizer. Se calhar os 750 euros (caso estejam livres de impostos, claro) até seriam uma opção melhor do que receber 250 euros a recibos verdes. Nem parece absurdo que se encare como um prémio estar a trabalhar de graça durante três meses, quando é isso que se oferece regularmente num vulgar concurso de televisão como o Ídolos ou o Secret Story – que não passam de coisas a meio caminho entre a entrevista de emprego e o estágio não-remunerado cujo prémio final acaba por ser a possibilidade de aceder a uma carreira qualquer.

Tudo isto só é um escândalo porque se tornou quotidiano.

Mas a Tetra Pak acabou por retirar o concurso declarando:

“Lamentamos não ter explicado claramente que este concurso estava dirigido a jovens estudantes de design, o que obviamente não ficou claro na nossa comunicação, pelo que pedimos desculpas.”

Porém, se fosse dirigido a jovens estudantes de design, não seria menos escandaloso. O prémio consiste em trabalhar quase de graça, e isso não muda se for um estudante a fazê-lo. Tendo em conta que paga propinas, tem custos, etc. o estudante que ganhou ou a sua família estará a pagar para trabalhar na Tetra Pak. Nem todos os alunos têm os meios financeiros para poderem receber um destes “prémios”.

Do mesmo modo que é ofensivo que alguém diga que o desemprego é uma oportunidade, é igualmente ofensivo que se sugira que trabalhar de graça pode ser um prémio.

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Filed under: Crítica

3 Responses

  1. Acho que se o concurso era destinado a estudantes, então devia ter sido divulgado dentro das escolas por professores e não pela net. Quanto ao prémio de estágio, esta é uma prática comum em muitos países: os estudantes fazem estágios não remunerados durante os estudos e inclusive há quem prescinda de férias para os fazer. É uma excelente oportunidade de se contactar com o mercado antes de se acabar o curso. Geralmente estes estágios fazem parte do programa curricular e contam para avaliação, o que faz todo o sentido.

    Infelizmente não é assim que funciona em Portugal… quer seja por se ter de trabalhar para pagar as propinas ou porque simplesmente não existe essa noção de estágio curricular, a consequência é acabarmos por ficar atrasados em relação a outros designers que tendo acabado o curso já têm um currículo e experiência invejáveis. E só nesse momento é que vamos fazer os ditos estágios não remunerados que já devíamos ter feito quando ainda estávamos a estudar.

    • Nas belas artes do Porto, há um programa de estágios curriculares. Os alunos acham uma boa experiência, mas levanta problemas éticos diários. As entidades empregadoras muitas vezes dizem de modo explícito que recorrem ao programa porque não têm dinheiro para pagar aos estudantes; é difícil avaliar o trabalho produzido porque muitos alunos assinam acordo de confidencialidade; é uma maneira legal de contornar a legislação que rege os estágios não-curriculares; faz-se concorrência a empresas que têm realmente que pagar aos trabalhadores; e ainda a dificuldade de encaixar isso num curso de quatro anos (seria pior se fossem três).

  2. Bom dia Mário,
    O que estou a fazer é uma verdadeira raridade: comentar em qualquer blog. Mas como é no teu, vou abrir uma excepção.
    Fui, mais que uma vez, contactado para abrigar no meu atelier, estudantes das mais diversas partes do globo (Líbano, Portugal, França, UK, Brasil…) e nunca aceitei, pois coloco sempre em causa o facto de eu não pagar pelo eventual trabalho que estes possam vir a realizar dentro do meu atelier. Devo dizer que penso que quem fica a perder são claramente os estudantes, mas, ainda assim, não abro mão de uma ideologia que afirma que todo o trabalho, deve ser remunerado. Mas isto também coloca uma série de questões do lado dos estudantes: será que ao limitar o acesso a esses estágio não estarei a reduzir a sua possibilidade de aprendizagem numa àrea como o desenho tipográfico, com claras lacunas no país? Será que o estagiário vai contribuir assim tanto para algum trabalho? Será que eu não vou perder o meu precioso tempo a ensinar um aluno que muito provavelmente até nem se interessa muito pela tipografia, mas acha engraçado dizer às miúdas que desenha uns tipos de letra (att: Não Resulta!)?

    Abraço, Dino dos Santos

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