The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Trapalhada

Do que se pode perceber do caso do edifício Axa é que a bandeira de Paulo Mendes foi a ponta solta que desfiou a camisola inteira. Quando se condicionou a exposição dessa peça, discriminando-a em relação a outras, houve censura, e o artista fez bem em retirar-se da exposição.

Essa recusa acabaria por forçar uma posição por parte dos outros artistas e comissários – ficar ou não ficar. Em qualquer um dos casos, concordando-se ou não, é uma escolha legítima. Pessoalmente acho que todos os artistas e comissários deveriam ter saído imediatamente.

Note-se que esta não é uma decisão fácil. Conforme costuma ser hábito nestes casos, calculo que as despesas de produção sejam da responsabilidade do artista. Sair implica perder esse dinheiro.

Para já não falar do receio de “ficar queimado” dentro do bastante cauteloso e paranóico mundo da arte – um receio parvo, sabendo que esse mundo é como uma frigideira; basta entrar para começar a ficar alourado.

No final, acabou por sair mais gente. E note-se como, na maioria das declarações, se justificou a entrada ou a saída no projecto pela solidariedade ou respeito para com o comissário A ou o comissário B – o que demonstra bem a responsabilidade do comissário, nem que seja como representante das opiniões dos artistas. Tal como já tinha dito em outras ocasiões, seria importante que os próprios comissários começassem a problematizar as implicações políticas da sua actividades. Sim, funcionam como mediadores entre instituições e artistas, mas essa mediação não é a alheia a problemas éticos, políticos ou legais. Infelizmente, corre hoje a tendência que o comissariado não é em si mesmo político mas deve dedicar-se a promover condições para que público, artistas e arte sejam políticos, se o quiserem – a estética relacional é dos exemplos mais óbvios.

Entretanto, também se ficou a saber que a sede de campanha de Rui Moreira também vai ser no mesmo edifício, coincidindo temporalmente com a exposição. Devia ter havido algum trabalho de casa por parte da organização, tanto das artes como da câmara, para antecipar isso. Mas era muito pouco provável que tal acontecesse. Afinal, nem as artes por cá por Portugal são particularmente activas no que diz respeito à política (apesar da fama), nem a política profissional percebe que há sítios onde não é bem-vinda.

Do que fica disto é uma sensação de trapalhada, de não saber bem o que fazer, nem de como o justificar – tirando as intervenções de Paulo Mendes. Raquel Guerra misturou desnecessariamente problemas de montagem e de organização com o problema central que é político; José Maia foi diplomata, o que seria suficiente numa situação mais calma, mas nesta salgalhada pode acabar por torná-lo no bode expiatório (é o que parecem indiciar as últimas notícias sobre o caso, que falam de “acertos na equipa”).

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Filed under: Crítica

11 Responses

  1. chicobabo diz:

    Escreveu o Paulo Mendes o seguinte sobre o episódio da bandeira:

    “Aquela ocorrência, que mostrou a total incompreensão da criação contemporânea, acabou com justificações legalistas como forma da entidade promotora do projecto justificar o injustificável – desviar as atenções daquilo que foi a razão principal do pedido para retirar aquele trabalho – e essa razão obviamente prende-se com o comentário político que está implícito na leitura do trabalho. Decidi sair da exposição de forma discreta, quanto possível, no final da manhã do dia 26 de Abril.”

    1ª pergunta: – A entidade que censurou de forma clara a obra do Paulo Mendes mostra incompreensão da criação contemporânea só pelo facto de recusar manter a afamada bandeira? É Paulo Mendes representante da criação contemporânea? O que há para compreender exactamente ? …

    2ª pergunta: – Qual é afinal o comentário político que está implícito na leitura do trabalho? Pelos vistos esse “comentário” é a razão de todo este imbróglio, todos o sabemos, mas ainda não percebi exactamente qual é ou a quem é dirigido.

    3ª pergunta: – Afinal a bandeira é um símbolo ou não é um símbolo? Em que ficamos? Se juridicamente não foi alterado nada no símbolo mas a obra pretendia causar instabilidade através com a sua simbologia “remixada”, sinto que ficamos num impasse.

    Já sobre outro episódio do edifício AXA, a desmontagem de uma exposição colectiva, e depois de ler o comunicado de alguns dos artistas que nela participavam, apenas compreendo o argumento da falha na produção como lógico.

    – Qual é o problema da sede da candidatura de Rui Moreira ser nos resto do chão do edifício? A certa altura parece-me que interessam mais as leias de boa vizinhança na composição da aura de uma exposição do que os trabalhos apresentados, que não vi, mas iria ver com o mesmo prazer com ou sem sede de candidatura.

    – Pretendem estes acontecimentos, que por aparência nada têm de coincidência, levar a uma discussão sobre este tipo de projectos, queimar as entidades públicas que gerem o processo, arrastar a comunicação social, especializada ou não, para o centro deste debate, ou até quem sabe, lançar uma espécie de sindicato de artistas. Não faço ideia, mas nada neste assunto é claro, ou, visto que nem sempre existe alguém com a vontade de clarificar, digo que nada neste assunto interessa realmente à prática artística.

    Mas não faltam artistas a discuti-lo afincadamente. É confuso, no mínimo.

    Outra questão me surge. Nas notícias sobre o projecto sempre vi bem sublinhada a participação de Serralves, entre outras instituições. Ora, como se posiciona Serralves em relação a estas questões? Parece ficar no que toca ao espalhafato bem longe do assunto. Pois talvez não devesse.

    *Note-se que o objectivo deste texto não é acicatar nenhum interveniente ou ex-interveniente no projecto 1ª Avenida. Escrevo porque questiono estas coisas com amigos e familiares, mas como nenhum deles domina o assunto ficamos sempre na sua dimensão especulativa. A única forma de algum dos intervenientes me responder a estas dúvidas é publicar este texto nas redes sociais.

    • Francisco, finalmente aparece um comentário com tino e algum humor no meio deste ruído todo…E olha que, acredites ou não, há quem gostasse de um sindicato assim, com órgãos sociais e tudo 🙂

  2. eduarda neves diz:

    pois é

    das manifestações sindicais à queima das fitas não faltam bandeiras enlutadas

    não há surpresa sobre isto nos tempos que correm

    de arte politicamente comprometida, ou não, espera-se isso mesmo…arte

    esta é a questão

    não convém sermos distraídos por uma bandeira

  3. luis diz:

    Parece que há tão poucos artistas no Porto que a última coisa que lhes ocorre é pensar na pergunta, será que a bandeira é uma boa peça de arte ou se trata de uma estratégia fácil e propagandística cujo único objectivo é angariar mediatismo para um artista que continuamente tem corroborado com tudo o que são iniciativas no mínimo duvidosas e que parece na primeira oportunidade querer lavar a sua cara? (veja-se a capital da cultura por exemplo e do dinheiro que por ali não correu) Se a bandeira tivesse sido exposta, tudo estaria bem, certo?

    Respeito tenho pelas pessoas que não integraram a iniciativa desde o seu início e por aqueles que tendo considerado bem a situação decidiram integrá-la seriamente achando que pelos seus próprios meios poderiam fazer um bom trabalho.
    É que o activismo hoje em dia também está na moda e é preciso ter cautela com as falsas intenções dos aproveitadores que viveram à custa de financiamentos e subsídios toda a vida achando que a arte deve ditar-se de uma poltrona. Porque se quisermos procurar falta de coerência, não é dificil encontrá-la no PM.
    É por isso inacreditável que estes mesmos que estão sempre na mó de cima se venham agora vitimizar e ainda lograr com toda esta situação. Pior reclamaram-se como arte política.

    Queimados ficam os restantes por não alinhar neste circo desta arte incapaz e propagandística centrada no nome do artista.

    As únicas motivações aqui são tudo menos políticas e sobretudo não são artísticas porque caso fossem o próprio deveria ter questionado a sua participação ou não neste evento desde o seu início. Trata-se de uma lavagem fácil (não foi preciso pensar muito no que poderia ser impedido pela câmara) e sobretudo de um aproveitamento, e tolos são todos os que apoiam estes actos de auto propaganda com base em trabalho fraco e fácil.

    Quanto a todos estes artistas que abandonam agora a exposição, em vez de estarem indignados deveriam estar envergonhados, ora pela ingenuidade e falta de comprometimento político inicial, ora pelo aproveitamento de agora. Pior mesmo, pela incapacidade que mostraram em lutar pelas suas próprias obras.

    • Quanto a se a bandeira é boa arte ou não: já o tinha falado sobre isso há uns textos atrás (link).

      Quanto a haver motivos, que é que isso interessa? Se alguém diz alguma coisa em público, é porque tem motivos para o fazer, como é óbvio. Se alguém denúncia um crime, por exemplo, que interessam os seus motivos, se não mentiu e houve realmente um crime?

      Pensa-se demasiado nos motivos que levam alguém a fazer alguma coisa porque é fácil e porque não leva a lado nenhum. Não me interessam os motivos pelos quais alguém faz alguma coisa em público (arte mas sobretudo opinar), apenas se me convencem ou não.

      E, já agora, o que é exactamente uma arte que não se interessa pela mediatização?

  4. anónimo diz:

    Tanta análise, tanta análise, de norte a sul e de leste a oeste do mundo, numa lógica de raciocínio em que individualmente se opta por fugir do essencial e se perpetua a mentalidade de um país de terceiro mundo, onde cada um está por si e ninguém se sente parte de nada reforçando a falta de respeito de todos para com todos, começando no “pelouro da cultura”, passando pelos “artistas” e terminando nos “internautas”, todos transmissores ou não de conhecimento e opinion makers. Dificuldades, isto é, problemas – complexidade, foram apresentados por parte de alguém face a outros – são todos cidadãos mas com diferentes níveis de hierarquia (já que todos invocamos a democracia, faz sentido balizar, e uma vez que ninguém se entende e aceita o que quer que seja – tendência de um grupo de indivíduos que têm dificuldades em lidar com palavras de ordem). A questão é, justifica-se a dificuldade criada? Se a obra é um balde de m****, ou se é uma bandeira monocromática, ou ainda se é jesus cristo com uma mira na cabeça, certamente que implica pesos e leituras diferentes, mas nevertheless, o problema é o mesmo – dificuldades criadas por A em relação a B. Justifica-se?

    • Acho que já respondi num comentário anterior: mas terceiro-mundista é acreditar que tudo se reduz a tricas entre A e B. Numa discussão pública, não interessam os motivos que levam alguém a argumentar alguma coisa, apenas se essa argumentação interessa. Ou seja, se é convincente, pertinente, etc. Caso contrário, andaríamos todos a discutir a vida uns dos outros como se isto fosse uma aldeia terceiro-mundista de comadres (ups, espera lá).

      • anónimo diz:

        Pois, será que é terceiro mundista ter consciência que esta foi a oportunidade para alguns senão todos, aparecerem e na prática ser a oportunidade de ouro para descascar na falta de apoio da câmara nos últimos anos? na minha peça de ficção, já que o Sr. Mário fala a verdade, terceiro mundista é acreditar que a motivação pessoal não interessa e cingir-se aos ‘argumentos’. Para ser convincente e pertinente parte do QI de cada um, tal como da capacidade em não hesitar, na habilidade de criar uma ofensiva e ter o fantástico dom da imaginação. Pensar que tudo isto é uma tentativa de levar o discurso para um plano intelectual quando não é, é de facto irónico. Sim, Sr. Mário, se acha que não vive numa aldeia terceiro-mundista de comadres, então sorte a sua.. é mais perspicaz que todos os outros. Vive la France!

      • Sim, à primeira pergunta.

  5. anónimo diz:

    Era retórico Sr. Mário, mas se quiser tirar as teimas também tenho um kart na garagem.

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