The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Sete Ofícios não chegam

Nos velhos tempos, há uns seis anos ou sete anos, eu ainda dava as minhas notas em papel, penso que já escrevia os sumários e programas de disciplinas na internet. Entretanto, já posso preencher e entregar os meus relatórios, os meus impostos, os meus papers. Tudo muito eficiente. Excepto pelo pormenor que não se trata de melhorar as tarefas que eu fazia mas de lhes acrescentar outras: por exemplo, estar disponível para responder a mails 24 horas por dia 7 dias por semana, sem feriados, férias ou o que seja. Ser o meu próprio secretário enquanto se dispensava cada vez mais gente dos serviços administrativos. Depois ser, para além de professor de design, um investigador de carreira, o que não é a mesma coisa. Ou, para além de escrever sobre design, ter de escrever papers sobre esse assunto (também não é a mesma coisa). E, para além disto tudo, orientar a investigação feita por terceiros, orientar estágios (mais outra tarefa). Também aqui trabalho de várias pessoas concentrado numa só.

Há pouca gente (empregada) na nossa cultura que não tenha pelo menos dois empregos. E mesmo os desempregados correm o risco de terem que trabalhar para poderem receber o dinheiro que descontaram. Isto para além de terem de cumprir o ritual da bicha da Loja do Cidadão, do formulário, etc. Vivemos na sociedade da ocupação permanente do tempo. Cada segundo ou está ocupado ou é uma espécie de pecado.

Mas este multitasking forçado também tem as suas desigaldades: para o vulgar cidadão  é um airbag a abrir dentro de uma vida que já era acanhada; para um político, por exemplo, significa que pode ser deputado, advogado, economista, professor e ainda comentar tudo isso. Ou seja, um político pode ser político profissional e ainda ter a oportunidade privilegiada (e quase exclusiva) de intervir na política civil, na discussão pública.

É curioso que em áreas como as artes ainda se acredite que a intervenção política e pública é indesejável, enquanto o próprio artista (ou designer ou outra coisa qualquer) é obrigado a acumular cada vez mais funções só para manter o nariz de fora de água. Para reclamar outra situação, talvez mais favorável, seria necessário que acumulasse também mais uma função: a de cidadão que intervém em público pelos seus próprios direitos (mas isso seria de mau tom).

Numa sociedade onde cada pessoa acumula várias funções, o conflito de interesses é inevitável. Ser político e comentador talvez seja um; mas ser artista (ou designer ou outra coisa qualquer) e não intervir publicamente é também um conflito de interesses.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. De diz:

    Excelente comentário

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