The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Sacrifício

Maio é o pior mês do ano. É aquela altura antes das avaliações e das férias quando toda gente no ensino superior quer mostrar o trabalho que esteve a organizar desde o começo do ano. Assim, toda a gente quer conferências e textos, embora tradicionalmente haja muito pouco (nenhum) dinheiro para os pagar.

Também é a altura do ano em que se pode concorrer a calls for papers que implicam a possibilidade de pagar uma ou duas centenas de euros para submeter um texto para avaliação do júri (que pela minha própria experiência não é pago) e depois produzir uma conferência sobre o assunto.

Se calhar até me devia dar por afortunado por ter uma ou duas pessoas que me pagam para escrever. Ou até por não ter de pagar para publicar (até agora, só o fiz uma vez).

Em todo o caso, o que me irrita mais no sistema é o “profissionalismo”. Apesar de não haver dinheiro, há prazos, e há exigências de formato. Acaba por ser o melhor indício da ingenuidade insensível disto tudo: onde não há pagamento, não pode haver profissionalismo.

É óbvio que é o mesmo em todo o lado. Vivemos numa sociedade onde se pedem ou se impõem sacrifícios muito antes desta crise ter começado: ficar até mais tarde, durante a hora de almoço, ao fim de semana, fazer o trabalho do colega que desapareceu, etc. O sacrifício já não é nada de excepcional; é assumido por defeito. Se não se estiver a fazer sacrifícios é porque não se está a fazer o suficiente.

É o sacrifício permanente entendido como carácter, como ética, como desígnio. E já nem tem um objectivo que não passe de pretexto facilmente descartável ou actualizável (cumprir aquele trabalho, aquele dia, aquela semana, aquele ano). Não é um meio para alcançar um fim mas um fim em si mesmo.

E, neste sistema (porque é um sistema), até o que fica de fora do trabalho e da carreira também se torna num sacrifício: é preciso ocupar o tempo que sobra com viagens, com passatempos, com causas, com uma família, com uma vida privada que se perceba que exista (filhos, pais, doenças) para que isso não seja invadido. A vida privada só é autorizada se a apresentarmos também como um sacrifico, como algo que dá trabalho.

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Filed under: Crítica

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