The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Axa que sim, Axa que não

Sempre que na universidade há uma daquelas reuniões com o objectivo de levantar problemas, já me habituei a um fenómeno curioso: os problemas são quase sempre materiais. Ah, se houvessem mais uns computadores, mais projectores; turmas mais pequenas; ligação à net; uma máquina de café; sofás. Nestas ocasiões, a culpa tende a ser das coisas e não das pessoas e percebe-se porquê. Qualquer crítica que se dirija aos conteúdos, aos métodos, por mais leve que seja, tende a ser vista como um ataque pessoal, uma interferência. Vive e deixa viver, é a regra.

Tive a mesma sensação ao ler os muitos comunicados do Caso Axa. Quase toda a gente culpava a má produção, a logística. E acredito que, nesta área, houve razões de queixa, porque há sempre. Não inaugura nenhuma exposição, pequena ou grande, que não tenha os seus dramas.

Mas não foi meia dúzia de televisores apagados que fizeram do Axa um caso – imaginem uma notícia de jornal a dizer que uma exposição tinha encerrado porque as tomadas eléctricas não funcionavam ou os projectores tinham fundido ou o bar aberto afinal era pago.

Não foi a produção que tornou isto político ou público. Foi a retirada da bandeira e uma comunicação pública a sugerir (sem o nomear) um acto de censura por parte da organização. Se isso não tivesse acontecido, não tenho grandes dúvidas que seria mais outra grande iniciativa cultural semifalhada que daqui a seis meses só seria uma assunto muito ténue em  discussões de café e jantares.

Contudo, e significativamente, se do lado do artista se deu a entender censura, do lado da organização falou-se de (rufar de tambores) produção. Depois, nas comunicações seguintes falou-se de produção e de questões políticas (Raquel Guerra). E de questões de produção (José Maia).

Tal como nas reuniões da universidade, também aqui não duvido que as questões de produção foram uma maneira de contornar um problema. Falou-se de logística para evitar melindres. E um desses melindres foi a remoção de uma obra de arte incómoda.

Tudo isto sugere que este género de intervenção é quotidiana, mas só raramente é questionada em público. Tende a eternizar-se como mexerico inconsequente, dentro de uma cultura que é largamente oral e local. E muito pouco preparada (como se viu) para discutir estas questões fora das suas capelinhas.

Tem-se discutido porque entrou tanta gente neste projecto falhado, ainda por cima associado ao Rui Rio. Tem-se sugerido ingenuidade. Ou então fé na competência dos comissários. Ou até amizade. Algumas pessoas calculo que tenham entrado naquilo por falta de fé: por pior que seja a exposição acaba por não acontecer nada e, se acontecer, quem levanta ondas acaba isolado (e mesmo nas raras ocasiões onde a maioria quase concorda com a vozita discordante, dirão que aquela ainda não era a ocasião ideal para fazer qualquer coisa – nunca é).

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Filed under: Crítica

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