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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Designer como Funcionário

Sempre tive um problema com os concursos de design, que entendo sobretudo como o modo preferencial¹ de uma instituição pública contratar serviços de design. Ou, visto do outro lado da questão, o concurso é o mecanismo através do qual o designer se relaciona com o Estado enquanto cliente. E, em Portugal, o Estado é o cliente de sonho. Percebe-se isso bem através da maneira como os objectivos do Centro Português de Design mudaram ao longo da sua história (na prática, embora não no papel). Começou por servir de ponte entre os designers e a indústria e acabou a regular concursos de design.

Um dos concursos que regulou foi o da identidade do Guimarães Capital da Cultura 2012. Foi um concurso que evitou muitos dos problemas habituais dos concursos portugueses. Tanto quanto me consigo lembrar, concorria-se através do portfolio, sendo seleccionados uns tantos designers que seriam pagos para produzir maquetes da imagem final. O prémio e o trabalho iriam para um deles.² Deste modo, não se obrigava os concorrentes a arriscarem o seu tempo e os seus recursos à borla. Sob o ponto de vista dos designers, foi um concurso bastante ético. Penso que até os designers que faziam parte do júri foram pagos.

E qual é o problema deste concurso? Principalmente um: teve um júri maioritariamente de designers. Neste caso, estava-se a contratar uma identidade que seria aplicada durante alguns anos. Um designer pode assegurar a qualidade formal da identidade mas ser-lhe-á mais difícil garantir a capacidade do designer vencedor se integrar na instituição para a qual vai trabalhar.

Este é um problema recorrente, mas em grande medida invisível. Percebe-se pelo canto do olho, quando as coisas dão para o torto. No concurso para a identidade do Centenário da República, por exemplo, pagaram-se 10.000 euros em concurso por uma identidade que seria aplicada por um designer “de confiança” contratado em ajuste directo por um valor quase vinte vezes superior. Na altura, a questão da confiança, da “garantia de qualidade”, foi invocada pela organização para justificar esta discrepância.

Em outras situações, há concursos que vão parar recorrentemente à mesma firma porque a instituição prefere trabalhar com um designer em particular mas é obrigada a contratá-lo por concurso – e contratando-o deste modo encapotado pode sempre despedi-lo se a coisa der para o torto.

Ou seja, em muitos casos, o cliente estatal prefere uma relação de longo prazo com um designer e acaba por consegui-la através de mecanismo pouco éticos, transparentes ou até ilegais.

A solução evidente seria não pensar sempre no design como um serviço contratado externamente, mas como uma peça do funcionalismo público. Ou seja, se uma instituição precisa recorrentemente de serviços quotidianos de design deverá ter um gabinete interno que se dedique ao assunto. É bem provável que poupe dinheiro e canseiras.

Contudo, o modo tradicional de praticar o design é enquanto um serviço de consultadoria externa. A vantagem deste modelo para os designers é a possibilidade de trabalharem para mais do que um cliente. A desvantagem, a partir de certa quantidade de clientes, é o tamanho da firma, que implica custos logístico e de pessoal. Deixa de compensar fazer trabalhos abaixo de um certo orçamento (a menos que não se pague aos colaboradores, mas isso é outra história).

A partir de certa escala (de orçamento e de organização), sai-se do território do atelier e entra-se pelo território da agência – que pela sua escala consegue produzir trabalho rapidamente com pouco custo para uma grande variedade de clientes numa variedade de serviços que ultrapassam o design. A desvantagem da agência é a escala e a complexidade tornarem o trabalho modular, industrial e formuláico – isto não funciona para todos os clientes e explica porque o design de instituições culturais acaba quase sempre por ser feito por firmas pequenas.

Com o computador pessoal e a precarização geral do emprego, tornou-se bastante fácil ter um designer a trabalhar internamente em empresas que podem não ter nada a ver com o design – que é como quem diz, gente que nunca se lembraria de contratar um designer há cinquenta anos (nem teria dinheiro para isso) pode agora fazê-lo, porque é barato. E note-se que em muitos casos nem se trata de concorrência a firmas ou agências mas de uma forma de design enquanto secretariado. Não se trata de produzir identidades, brochuras ou cartazes produzidos em gráfica mas de coisecas de expediente produzidas (quando muito) numa casa de cópias.

Boa parte da precarização do design decorre de uma precarização geral do trabalho assalariado, porque o design neste momento se tornou numa forma de trabalho assalariado, exercido fora da estrutura da firma de design.

Para além deste problema, o Estado deixou de ser o cliente de sonho. Encomendar trabalho de design numa época de contracção orçamental é difícil e até mal visto. Encomendar um novo logo enquanto se dispensa gente não é uma grande ideia.

Nesta altura, em que se tenta repensar o papel do Estado, eu pessoalmente não simpatizo nada com a redução das suas funções à de subcontratador de serviços externos, entre eles o design. Se não acho grande ideia que serviços como a electricidade e a água sejam privatizados, também não acho que o design de estado deva sê-lo. Acredito que em certas circunstâncias o design pode e deve ser exercido como um serviço público.

––

1- Ou consensual; em todo o caso, não é a minha preferência. Talvez “tradicional” fosse o termo mais adequado.

2- Entretanto, alguém me corrigiu: o prémio foi para um designer e a execução ficou a cargo de outro – tal como aconteceu no caso do Centenário da República.

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Filed under: Crítica

2 Responses

  1. […] Eu acho-o essencial. Mas não acho que o design de instituições públicas tenha de ser encomendado em concurso e por consultadoria a firmas de design (individuais ou colectivas). O design não é necessariamente uma actividade privada e, dadas as más experiências com concursos do género, avenças, etc. acredito que deveria haver modelos públicos da prática de design.¹ […]

  2. […] para que conste, mais uma vez, não gosto particularmente do formato habitual de concurso, nem acho que seja inevitável situações onde o Estado contrata […]

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