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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Design como Secretariado

Já tinha falado muito por aqui (e por outros lados) que o design se tinha transformado desde os anos noventa numa espécie de “secretariado gráfico”. Com isso queria referir-me a designers que eram contratados por firmas de outros ramos para fazer uma espécie de design de expediente (desde actualizar o site a fazer pequenos trabalhos que não justificam a ida a uma gráfica). Falava de designers a título individual mas é cada vez mais evidente que o mesmo acontece com firmas de grande dimensão, contratadas como uma espécie de “departamento externo de design e produção”.

Isso acontece muito frequentemente com concursos para produzir identidades gráficas para eventos de grandes dimensões: faz-se um concurso público com um prémio relativamente pequeno, dirigido ou não a “jovens”, e o resultado desse concurso é posto em prática por uma firma de design contratada – em geral, por ajuste directo e por um valor muito superior ao do prémio.

Ou seja, a parte menos criativa do trabalho é a que mais compensa. Isso aconteceu no caso do Centenário da República. Entretanto, informaram-me que também aconteceu no Guimarães Capital da Cultura 2012. E há bastantes mais exemplos.

O argumento para esta divisão de trabalho é a garantia de qualidade e de confiança no trabalho de execução. Mas fica sempre a ideia que só as migalhas vão a concurso enquanto o grosso do dinheiro e o vínculo à instituição que faz o concurso vai para alguém sem que se perceba muito bem como.

O argumento da garantia de qualidade faz-me lembrar o modo como funciona (ou funcionavam) a função pública em países mais despartidarizados que o nosso. Lembro-me em particular do Governo Inglês, onde cada novo Governo era servido pelo mesmo grupo fixo de funcionários de alto nível. E faz-me pensar que seria bem mais eficaz e transparente haver gabinetes internos de design e produção (como na Casa da Música e Serralves) do que andar a contratar grandes firmas de design para o fazer.

De qualquer maneira, fica a ideia que um dos negócios de eleição para firmas de design de nomeada é fazer trabalho que já não se pode classificar como criativo por orçamentos generosos, o que leva a concluir que o design como secretariado (como serviço) não é assim tão subalterno e se tornou inclusive no modo dominante de produção, precisando urgentemente de ser pensado.

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Filed under: Crítica

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