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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Ensino Público e os seus Logos

Nos últimos dias tenho discutido e assistido à discussão sobre o concurso do logótipo para a Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Alguns designers e professores da área escreveram uma carta expressando a sua indignação pelo baixo valor do prémio a concurso, pelo júri não ser constituído por designers e pelo concurso ser aberto a gente sem formação em design.

Respeito a sua posição, mas não é a minha. Nenhuma destas questões me desperta qualquer indignação.

Já disse porquê em outros textos. Acho mais justo que se estabeleça um salário mínimo para designers do que um preço mínimo por projecto (não é a mesma coisa e as consequências são muito diferentes). Não me chateia que se pague o equivalente a um salário mínimo por um logotipo que não leva evidentemente um mês nem perto disso a fazer. Na instituição de ensino onde trabalho, a designer residente ganha pouco mais do que o salário mínimo (35 horas por semana). Se ela dedicar um dia a fazer um logotipo ele ficará por 20 €.

E, passando ao ponto 2, a memória pode-me estar a trair mas o júri que a escolheu não incluía designers.

É uma situação terrível, que a instituição já tentou melhorar, mas as bizantinas regras de redução de pessoal na função pública tornam impossível pagar-lhe mais do que isso. Podia-se fazê-lo contratando-a a recibos verdes, ou seja precarizando-a ainda mais. Para o ano, se ela continuar a trabalhar na escola, trabalhará 40 horas por semana. (Update: tarde demais, já trabalha 40 horas por semana.O tal logotipo ficaria ainda mais barato.)

Ou seja, acho que a indignação está mal dirigida. As instituições de ensino público não têm um tostão. Pode-se argumentar que devem dar o exemplo, mas o exemplo de quê? Que só se tem acesso ao design acima de certo valor? Que em tempos de austeridade forçada uma instituição pública deverá atirar o design pela borda fora porque não tem dinheiro para o pagar? Ou deverá atirar dinheiro (que não tem) pela borda fora porque o design é mesmo mas mesmo essencial?

Eu acho-o essencial. Mas não acho que o design de instituições públicas tenha de ser encomendado em concurso e por consultadoria a firmas de design (individuais ou colectivas). O design não é necessariamente uma actividade privada e, dadas as más experiências com concursos do género, avenças, etc. acredito que deveria haver modelos públicos da prática de design

É uma ideia em contraciclo porque mesmo as pessoas que mais se opõem ao processo de privatização do ensino não conseguem conceber o design como uma função pública, concedendo que seria (quando muito) um design de segunda. Ou seja, é uma ideia que não tem muito apoio do Estado, nem dos próprios designers.

Do mesmo modo que não acredito que uma universidade deva ser uma empresa (e duvido até da necessidade de se apresentar ao público através de um logotipo), também não acredito que o seu design deva ser feito e contratado nos mesmos moldes de uma empresa privada.

––
1. E como é evidente não estou a falar de contratar designers a tempo inteiro por pouco mais do que o salário mínimo.

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Filed under: Crítica

17 Responses

  1. Mariana diz:

    Mário, do mesmo modo que não te parece escandaloso que um concurso ofereça 500 euros por um logotipo (que demora certamente muito mais do que eu dia a ser concretizado, isto se não quisermos ir para uma solução “pronto a vestir”) também é possível argumentar que uma designer que receba um pouco mais do que o ordenado mínimo para fazer o tal “serviço público” é justo. Por outro lado a designer possivelmente não tem um contrato de exclusividade que a obriga a confidencialidade ou “não autoria”, tem os descontos para a seg. social assegurados (eu trabalhei muitas vezes em contratos a termo incerto só para ter o ordenado mínimo e os descontos certos, todos os meses, sem surpresas). Poderemos ainda argumentar que em termos de benefício, o acesso a oficinas é um privilégio, etc… Logo não me parece que, em ambos os casos, seja estejamos a falar de valores justos, mas em todo o caso o logotipo a 500 euros (tendo em conta que não falamos de um “emprego” e que há muitas contas que teriam que ser ponderadas) muito mais gritante.

    • É uma questão de opinião, de convicção e até de ocupação, mas acho mais gritante o “emprego”, assim, entre aspas. Quanto ao concurso: não acho que faça muito sentido, seja por 500 euros ou 500.000. Já dei as razões para isso no texto. Não acho que seja a encomenda de um logo a 500 euro que desprestigia uma instituição pública, mas essa instituição ser recorrentemente subfinanciada, usando argumentos de que é um sítio ou um emprego “seguro”.

      Há pelo menos três lados da questão, todos eles com as suas dificuldades e sujeitos a injustiças: o dos designers em geral, o da instituição pública e o dos designers internos dessa instituição. Ao reivindicar um concurso e um concurso acima de determinado valor está-se a beneficiar os interesses de firmas acima de certa dimensão, esquecendo os outros. Sou funcionário público e acredito no serviço público, logo a minha escolha é a oposta.

      • Mariana diz:

        Acho que não podemos argumentar o que é pior: um emprego como designer numa faculdade com o ordenado mínimo ou um concurso onde temos a possibilidade de sermos escolhidos com um trabalho pago por 500 euros. Submeter-nos a um concurso nestes moldes é manifestamente injusto e nesse caso também estaria a beneficiar a instituição. Por outro lado, vejo as coisas também por outro lado: são muitas vezes firmas maiores, com estagiários não pagos ou com atividade paralelas ao design (ensino por exemplo) que se podem submeter concursos ou a trabalhos com valores mais baixos ou até pagos com moedas de troca como o prestigio do trabalho, o portfólio, o currículo, etc… que têm condições de aceitar este tipo de propostas. Eu também já fui funcionária pública e também acho possível o tal serviço público, mas não penso que este seja um bom exemplo pelo menos na comparação que sugeres.

      • Mais uma vez, para não haver firmas maiores que baixam os orçamentos recorrendo a maus ou nenhuns salários, a solução mais imediata é estabelecer um salário mínimo e não um orçamento mínimo (que não resolve nenhum dos problemas).

  2. Gonçalo Falcão diz:

    Não podia estar mais em desacordo e aproveito aqui, porque no facebook não me pareceu ser o espaço indicado para dizer porque é que acho que há uma distorção enorme nesta argumentação.

    1. Na nossa sociedade, a maior parte dos trabalhos não se mede ao tempo. Não interessa só o tempo que o pediatra está com os meus filhos, mas os anos de experiência, estudo, capacidade de observação e criatividade que tem para diagnosticar os problemas de saúde.

    Não me interessa só o tempo que o polícia está na rua mas o risco que assume pelo facto de lá estar com uma farda e a coragem e preparação que necessita ter para agir caso seja necessário.

    2. Não é comparável a posição de alguém contratado durante um ano, com os descontos para uma série de organismos que lhe darão o mínimo de conforto depois de ter saído do trabalho ou o direito de faltar porque foi ao pediatra com os filhos, e que sabe que no fim do mês receberá aquele valor, com alguém que arrisca o seu tempo num concurso onde – relembro – vão perder todos menos um. Ao Mário também não lhe pagam só o tempo que dá aulas (o que daria o valor desajustado de quase 100 euros por hora) mas o reconhecimento que tem uma capacidade para o fazer, o facto de as preparar, de ser capaz de acompanhar os trabalhos dos alunos e o conhecimento para os ajudar e a produção de conhecimento que será apresentado publicamente em conferencias e em textos que, ao contrário do que já disse, são pagas porque fazem parte deu trabalho.
    O júri que escolheu a estagiária para a sua faculdade, do meu ponto de vista, não tinha que incluir designers porque a estagiária foi escolhida por entre as pessoas que foram formadas pela sua instituição, tendo por isso um reconhecimento de competências prévio que garantia um bom desempenho, sendo por isso necessário avaliar apenas outras qualidade e disponibilidade.
    Usando uma metáfora sugerida pela Susana Oliveira, se a Faculdade de Belas Artes do Porto, encontrasse na sua biblioteca, uma edição rara do Pare António Vieira e decidisse fazer um concurso, aberto a toda a gente que tenha gosto pelas letras e jeito para a tradução (que como o Mário propõe, a formação específica é um adorno que não é essencial para um bom desempenho) e pagasse 500 euros pelo serviço. Findo o prazo um júri constituído por professores da FBA/UP iria ver qual era a tradução que gosta mais e a que tinha palavras mais bonitas, pagando a esse autor e fazendo os outros 350 perder tempo. Se quando precisa de um medico, de um jurista, de um tradutor, de um veterinário não chama 5 e depois o Mário escolhe, porque é que não o indigna que esta prática tenha sido instalada no design? Não lhe parece que o que distingue o bom do mau profissional, em todas as áreas é a capacidade de passar para além do fazer e de juntar os conhecimentos técnicos a uma capacidade de análise que inclui sempre – necessariamente – a criatividade?
    Há imensos modelos públicos de prática de design; a estagiária que referiu das belas artes é um deles. A faculdade poderia ter pedido às Belas-Artes uma estagiária, pagar-lhe 500 euros por mês e pedir-lhe que desenvolvesse a marca e outros materiais comunicacionais. O valor é claramente insuficiente pois se a faculdade recorresse ao programa de estágios do Instituto de emprego pagar-lhe-ía duas vezes o ordenado mínimo nacional (aprox 1000 euros) que é o que o estado acho justo para empregar alguém formado mas sem experiência. Não é uma ideia em contraciclo, é uma ideia banal e recorrente. Todas as Câmaras Municipais grandes têm um designer pelo menos.
    Contraciclo é afirmar que 500 euros é pouco para se contratar alguém especializado e formado, mas que qualquer pessoa pode fazer design.

    • 1. O argumento do tempo é tão válido para o concurso como para o contrato. Também aqui a experiência passada faz diferença, a formação, etc. Logo, sendo tudo o resto igual, o tempo acaba por ser uma maneira tão boa como outra qualquer de comparar trabalho semelhante.

      2. Concorrer a um concurso é um risco; sempre foi e será um risco, por mais que seja minimizado por fees, etc. Não há maneira de o evitar. E se parece absurdo que um paciente faça cinco médicos perderem tempo, em mercados como o americano o concurso para fornecimento de serviços médicos é comum – e há empresas inteiras com médicos, contabilistas, enfermeiros, a arriscarem o seu tempo e os seus recursos desse modo. Aliás neste momento, o formato de concurso é quase universal (outro nome para isso é “Mercado”) e consiste em deixar os riscos e os custos do lado de quem concorre. Até a entrevista de emprego se tornou num concurso prolongado, um estágio de 3,4,5 meses de duração, cujos custos são sustentados por ele mesmo ou pelo Estado através de subsídios. E no final não há garantia nenhuma de que o trabalhador não esteve a perder o seu tempo. Se parece absurdo que se concorra por tudo e nada e se existem assuntos onde a concorrência não é a prioridade, o sector público será sem dúvida um deles, seja ele o ensino, a energia ou a medicina.

      Acho curioso que se defenda com unhas e dentes a profissionalização do design e a dignificação do design, deixando em segundo plano aquela coisita do salário. Muito poucos designers exercem realmente o design em condições que se possam descrever remotamente como as de uma profissão liberal (fazem-no por conta de outrém). Ou seja são o exemplo clássico do recibo verde falso. Deveriam estar a falar de salários e contratos e não de estágios e concursos.

      Esta é uma crise onde o direito ao trabalho (contrato, horário, local de trabalho, etc) e o trabalho público são particularmente atacados. Em geral, com argumentos de que é mais seguro.

      E, não, não considero a ideia de por estagiários a fazerem design um bom modelo de design como função pública.

  3. Gonçalo Falcão diz:

    1. Continuo a não concordar com o argumento do tempo porque o tempo de um medico é diferente do tempo de um pedreiro (a não ser em Marx) isto porque o grau de especialização, formação e singularidade que pressupõe é diferente. A experiência passada de um calceteiro não faz com que o seu fazer se torne único e a do tradutor pode faze-lo.

    2. Confundir um concurso para fornecimento de material, de matérias primas que têm especificações comparáveis com um concurso para material prima de pensamento não acho sequer aceitável como ponto de argumentação. Fornecer seringas não é a mesma coisa que fornecer serviços de tradução.
    A entrevista de emprego é um modo normal de as pessoas de conhecerem. Os estágios não remunerados são inaceitáveis, o que se deve é ajustar o valor do estágio ao que é transaccionado (e nem sempre é pouco porque há formadores que têm um afastamento de tal forma gritante em relação à prática – que a odeiam e desprezam – que por vezes tem que ser o Mercado – esse monstro destruidor – a porvir com o que o formado procurava obter e não conseguiu).
    O estado não sustenta os estágios por subsídios. O estágio comparticipa a formação porque sabe que muitas faculdades – vou voltar a repetir para que fique claro – têm formadores de tal forma afastados da prática, que nunca fizeram absolutamente nada, que são incapazes de fornecer o tipo de conhecimentos necessários à actividade profissional. Por isso a formação tem que ser complementada pelas empresas e não devia generalizar achando que elas não o fazem, sorvendo apenas os cérebros e mãos (não esquecer as injecções atrás da orelha) dos licenciados.

    3. Eu também acho curioso que se defenda com unhas e dentes a profissionalização do design e a dignificação do design, deixando em segundo plano aquela coisita do salário. E mais curioso que o Mário a desvalorize e considere que a formação e os 500 euros pagam perfeitamente o tempo e o trabalho, recusando-se a assinar a carta porque não vê mal maior naquela situação, ou melhor, até vê, mas não a vê como o maior dos males.

    4. Já todo o patoá do recibo verde, coitadinhos, estágios não remunerados, precariedade, bandidas-das-empresas que exploram o pão, os empresários são broncos, não dão condições, despedimentos, etc com que gosta de forrar a argumentação, parece-me areia para não debater o essencial e ainda assim manter abotoada a dignidade. Dar o exemplo e não fazer alarde disso é o que é preciso.

    Concordo totalmente que esta é uma crise onde o direito ao trabalho (contrato, horário, local de trabalho, etc) e o trabalho público são particularmente atacados. E os ataques mais destrutivos vêm dos que estão confortavelmente apoltronados de mãos-postas no emprego, inquestionáveis e não avaliados. Atiçam o lumpen, o que é uma actividade sempre querida à burguesia bem instalada.
    E, sim considero a ideia de por estagiários a fazerem design, um bom modelo na função pública e na função privada desde que o estágio seja realmente uma plataforma de desenvolvimento e aprendizagem e não um eufemismo para pagar menos.

    • 1. A comparação entre profissões distintas não se faz através do tempo. A comparação entre um designer por concurso ou por contrato é comparável através do tempo.

      2. A confusão não foi minha. Queria apenas mostrar uma situação onde médicos e serviços médicos são escolhidos por concurso. Macs ou seringas, cada concurso envolve recursos materiais para além do pensamento. A telepatia seria mais barata, calculo.

      Um estágio não remunerado é essencialmente trabalho não remunerado disfarçado de entrevista de emprego prolongada, muitas vezes em concorrência com mais outras tantas vítimas, em formatos que se aproximam ao concurso televisivo.

      Muitas faculdades têm problemas, muitas empresas têm problemas, etc. Não acho essencial ou melhor solução universal o estágio ou mesmo a prática do design em empresas. Nem acho que a empresa especializada em design dê à partida uma melhor formação.

      3. Não assino a carta, porque concordando que 500 euros são pouco, o resto da argumentação não me convence minimamente. Além, de muito simplesmente, preferir resolver os problemas que estão debaixo do meu tecto antes de apontar o dedo a outros.

      4. O essencial, para mim, é discutir o recibo verde, a precariedade, etc. Tudo o resto é patuá para justificar a acusação que o serviço público é tão mau, ignorante e despesista que nem consegue pagar o devido balúrdio a um designer. Cada um tem as suas prioridades.

      • Gonçalo Falcão diz:

        1. Qualquer pessoa é escolhida para qualquer cargo através de um concurso, seja um ele formalmente organizado ou porque alguém, de entre as pessoas que conhece, escolhe aquela que lhe parece mais apropriada. A vida faz-se por escolhas e por isso nem percebo qual é a questão. Precisa um médico ou o jardineiro; os médicos e jardineiros disponíveis apresentam-se (por recomendação ou outro) e quem contrata escolhe de acordo com os critérios que valoriza. A mesma coisa se passa com os serviços de design, escolho de entre as empresas/profissionais disponíveis aquele com quero trabalhar e, como tudo na sociedade, assumo esse risco.
        O que nunca se deveria fazer é pedir que os profissionais trabalhem e depois escolher o produto do trabalho, porque esse deve ser sempre pago. O Mário pode ir a cinco médicos, mas vai ter que pagar cinco consultas, porque diagnosticar doentes é a profissão deles. Neste sistema em que se faz escolhas pelo produto do trabalho realizado, muitos perdem tudo e um (dois, na verdade) ganham, porque a escolha não se faz entre prestadores de serviço mas entre o produto do serviço feitos por todos os prestadores, sendo que só um será escolhido e todos os outros perdem.

        2. Qualquer tipo de serviço (não voluntário ou comunitário) – estágio, emprego, chame-lhe o que quiser – sem remuneração contraria os princípios da sociedade de mercado e as leis da concorrência. E nunca deveria ser aceite, em nenhuma profissão ou actividade.
        O estágio é uma prática que vem desde e a idade média e que pressupõe que alguém tem uma formação incompleta e portanto troca parte da sua remuneração por formação. É uma prática saudável se for verdadeira e não um eufemismo.

        3. Não acha que a empresa especializada em design dê melhor formação, mas o que deveria também questionar é esse seu achar. O Mário faz-me lembrar os jornalistas que se queixam que cada vez as pessoas leem menos jornais e nunca se questionam se o que escrevem vale a pena ser lido. O que nos leva à questão do balúrdio.

        3. Se, sendo professor universitário, não considera que a formação superior é fundamental para um desempenho competente então de facto o seu ordenado é um balúrdio (e de caminho dá-me razão na questão dos estágios profissionais). Se bem o percebo, o Mário ganha um balúrdio para dar um certo aconchego intelectual aos seus alunos mas de facto o que faz não serve para os preparar para um desempenho profissional. Eu intuo que o Mário acha o desempenho profissional desnecessário, mas o facto é que quando esta actividade tem uma forte componente prática, do fazer (como os médicos).

        4. Ainda a questão do balúrdio: estou interessadíssimo em discutir o “balúrdio” que o serviço público me paga como designer. Também gostava de discutir o “balúrdio” que o serviço público paga a um professor de design que nunca praticou design ou qualquer outro assunto profissional. Ou o facto de o design ser uma atividade política leva-me a estar disponível e com interesse de discutir os balúrdios e os pagamentos. Agora não me peça para discutir politiquísses como o “recibo verde”.

      • 1. e 2. “O que nunca se deveria fazer é pedir que os profissionais trabalhem e depois escolher o produto do trabalho, porque esse deve ser sempre pago.” Que é para que servem boa parte dos tais estágios que vêm desde a Idade Média (o que é sempre bom sinal).

        3. E eu acho que também deveria questionar esse seu achar. O Gonçalo faz-me lembrar os jornalistas que se queixam que cada vez as pessoas leem menos jornais e nunca se questionam se o que escrevem vale a pena ser lido. O que nos leva à questão do balúrdio.

        (Isso faz tão pouco sentido dito por mim como por si, o que é sempre indício de argumentação pertinente)

        4. Gostaria de saber se na muito discutida Faculdade de Letras há algum iluminado que acredita que só se pode escrever com um Diploma de Português, e adoraria ver um debate entre essa pessoa e um designer que acha que só se pode fazer design com um curso. Por escrito.

        (Agora, peço perdão, tenho que ir ali fazer um bypass a um logotipo. É uma questão de vida ou morte.)

        5. (Já voltei) Não lhe interessa discutir o “recibo verde”; são gostos. Está no seu direito. Pessoalmente, não me interessa muito indignar-me por concursos ou preços por tabela (já disse porquê umas tantas vezes; na ausência de novos contra-argumentos, não vejo necessidade de apresentar nova argumentação).

  4. Gonçalo Falcão diz:

    Dado que a escolaridade é obrigatória, esperamos nós que toda a gente seja livre de escrever, ler, fazer umas contas, desporto, aprender alguma música e de ter noções vagas sobre história e filosofia. Mas para escrever profissionalmente convém que tenha uma formação sólida: convém porque é a melhor maneira de nos defender a todos.
    Se aceitarmos pacificamente que exercer uma profissão não deva obrigar a uma formação técnica e política, sobre a sua missão, os seus limites, modus operandi e obrigações (seja para traduzir o Padre António Vieira ou para por letras nos jornais) lixamo-nos todos. Não é preciso ir à medicina porque me parece que hoje já é evidente nos sai a todos do corpinho o facto de quem hoje escreve profissionalmente na comunicação social ser, na maior parte dos casos, um mero copy-paster de press-releases, mais preocupado com a sua sobrevivência económica do que com o jornalismo. É bom para serenar o povo mas mau para a democracia. Ao contrário do que diz eu acho que não é o facto de saber juntar bem as letras que faz o jornalista e não é o facto do boneco sair borrado que prejudica o design.

    Pagamos já hoje nas nossas vidas as dos que escreveram sobre “o ventre de uma chamite” mas nunca lá estiveram; estavam nas Franças sustentados pela família (na melhor das hipóteses) ou em Vinhais, cheios de esquemas, a falar de alhos de dia e a vender-se por bugalhos à noite, ou nas associações de estudantes universitários a decidir sobre o que é que o povo precisa, o que é que o povo deve gostar e as condições de trabalho do povo que lava no rio.

    Soma-se ainda o facto, que já referi várias vezes neste diálogo consigo, de haver muitos que escrevem sobre música sem nunca a terem feito, tocado ou serem sequer capazes de a ler. Quem diz música diz design e etc.. Isto porque ajuda muito, para perceber a música, já a ter feito, porque a esmagadora maioria do conhecimento teórico em todas as áreas do conhecimento é extraído da prática e do fazer; até em poesia e filosofia, veja bem! É óptimo escrever sobre o ventre de uma banda de jazz, sentado num sofá confortável, fumando um pensativo cigarro. E falar sobre os recibos verdes da banda de jazz e sobre a precariedade da banda de jazz. E o que é jazz, o que é meio jazz e o que é um quarto de jazz sem nunca ter estado num palco, sem nunca ter sentido a adrenalina e a solidão de ter um instrumento nas mãos, de olhar para o público e pensar que do nada vai ter que fazer qualquer coisa. E depois falar do ventre da chaimite, dizer que o que lhe interessa são os recibos verdes, que qualquer um pode e deve tocar e que os bateristas ganham um balúrdio porque não é preciso estudar muito para tocar uns ritmos: os putos na rua tocam tão bem os tambores e até há máquinas que já os trazem gravados de fábrica!

    Balúrdios, bandidas das empresas, estagiários, recibos verdes, concursos, tudo isto é espuma. O problema é mais fundo:

    Os recibos verdes dos bateristas são uma parte pequena de uma história muito maior que se prende com o facto de a sociedade ter aceite pacificamente concursos como o Chuva de Estrelas (que premiava quem melhor copiasse) e dos músicos não se terem insurgido contra eles (tendo-se até prestado a ser júri, como o Sérgio Godinho do ventre da sua chaimite e Victorino de Almeida); e de sazonalmente fabricarem concursos para criar gente famosa – fim último de qualquer jovem – em que para tal é apenas preciso ter uma boa voz, talento e criatividade (e o talento e a criatividade, já se sabe, só são detectáveis em concurso e por escrutínio popular); e as instituições culturais como o CCB só contratam e tocam compositores portugueses quando o dinheiro é pouco, porque quando ele flui os maestros e orquestras estrangeiras são sempre melhores (Sagmeister et all).

    E no meio disto tudo os músicos e compositores portugueses nada dizem ou fazem, calam-se e dizem-se preocupados com os recibos verdes e a precariedade. Quem diz música diz design e etc.. Escevem em blogs e no facebook sobre o ventre da chaimite e sobre o que o povo não faz e devia fazer, não gosta e devia gostar.

    E vem-me à uma frase batida (do Eça): “escreve, escreve, Mário, vais ver o bem que isso te faz ao fígado.”

    • Por definição, para escrever profissionalmente, basta apenas se pago para isso. A formação é indiferente.

      A questão de escrever sobre coisas que não se pratica deriva do interesse que elas possam ter para mais gente que não os seus praticantes. Se ninguém discutir o jazz para além de quem o toca, é porque o Jazz não interessa a mais ninguém. Seria bastante difícil proibir o discurso público sobre algo que interessa (e aí já estamos a falar de censura).

      E assim sucessivamente.

  5. Gonçalo Falcão diz:

    “A questão de escrever sobre coisas que não se pratica deriva do interesse que elas possam ter para mais gente que não os seus praticantes.”

    Concordo totalmente. E se as amar e viver pode até contribuir com pontos de vista inusitados.

    “Se ninguém discutir o jazz para além de quem o toca, é porque o Jazz não interessa a mais ninguém.”

    Silgismo falso: ninguém discute as operações ao timo para além dos médicos que as fazem e que as investigam e interessa a toda a população.

    Seria bastante difícil proibir o discurso público sobre algo que interessa (e aí já estamos a falar de censura).

    Concordo totalmente, como aliás está bem expresso no meu último parágrafo e como o Mário, generosamente, patrocina neste esapaço.

    • “Silgismo falso: ninguém discute as operações ao timo para além dos médicos que as fazem e que as investigam e interessa a toda a população.”

      Acho que vi um episódio do Dr. House ou da Anatomia de Grey sobre as operações ao timo.

  6. Gonçalo Falcão diz:

    achar que a condição sine qua non para ser profissional é a de ser-se remunerado é dispensar totalmente o seu trabalho aqui e como professor.

  7. […] põe em causa o modo tradicional de praticar cada uma destas disciplinas (ver o caso do logo da Flup ou o ultimo número do Jornal dos Arquitectos). No fundo, trata-se de reinvidicar ao Estado apoios […]

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