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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Rendidos à Renda

Tem-se comentado muito a dependência da economia portuguesa do Estado (o que nem sequer é uma crítica justa, apenas uma versão local, provinciana, de um discurso mais alargado contra a intervenção do Estado). Contudo este discurso contra o Estado tem as suas contradições.

Embora se argumente que a privatização de serviços públicos se destina a melhorar a sua qualidade e a tornar mais competitivos os seus preços, na grande maioria dos casos nada disso acontece. Em geral, o serviço fica pior e mais caro. Isto acontece em parte porque, abertas as fronteiras à concorrência internacional, muita gente começou a apostar em negócios que consigam resistir a essa concorrência. Os serviços públicos, pela sua ligação a um território e a uma população são um desses negócios seguros – a chamada “renda”.

Dentro do design, português e não só, percebe-se que o Estado é o cliente de sonho. Dentro da história do design, percebe-se de imediato que os designers do cânone são aqueles que, de um modo ou outro trabalharam para o Estado, tendo-o como cliente ou dando aulas em instituições públicas. Percebe-se que boa parte da discussão política e ética tem a ver com a regulação do acesso a este cliente privilegiado, tanto democratizando o acesso através de concursos, como limitando esse acesso através de avenças.

Nos últimos anos surgiram ecossistemas bizarros entre o designer comum e o sonhado acesso á bolsa pública: concursos com prémios baixos, cujo resultado (um logo por exemplo) é aplicado por uma firma maior por um orçamento muito mais alto; concursos por convite, onde toda a gente recebe um fee de participação; concursos cujo trabalho vai parar tradicionalmente, no todo ou em parte ao mesmo designer. Na prática, trata-se de competir com o mínimo de risco por uma renda.

Entretanto, surge a crise e a austeridade, que assenta num corte brutal do investimento público, não secando exactamente o acesso a estas rendas, mas concentrando-as em patrocínios e apoios pouco claros, atribuídos sem concurso a grandes nomes – Joana Vasconcelos, mas também arquitectos que continuam a servir o seu melhor cliente, emprestando legitimidade a projectos de ética ou ecologia mais do que duvidosa. Outros, com mais princípios e/ou menos contactos, viram-se para intervenções de pequena escala e renovações, para coisas que nem se parecem muito com arquitectura – hotelaria, gastronomia, culinária.

Outro exemplo: a publicidade e o marketing, onde o Estado e as suas empresas costumavam ser um bom cliente. Há uns meses, um conjunto de agências recusou-se a participar num concurso da CP porque o orçamento mal chegava para pagar a uma mulher da limpeza. Ou seja, enquanto se discutia acaloradamente o despesismo da CP havia gente que se queixava de ela não pagar o suficiente e que aquele concurso era um insulto. Na discussão que se seguiu, houve até quem usasse como exemplo da má gestão da CP a sua incompetência para oferecer um orçamento realista/decente.

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Filed under: Crítica

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