The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

55 x 40 x 20

Há dez anos, o Porto era uma cidade culturalmente desiludida. Quando acabou o Porto Capital da Cultura, em 2001, ficou com a Casa da Música, com o Metro, com avenidas e praças renovadas mas, com Rui Rio na câmara, a cultura tinha esfriado. Havia ranchos folclóricos; haviam corridas de automóveis; em cada praça, expunha-se dentro de uma caixa transparente um automóvel antigo, como um carrinho de brincar, ainda embalado. Antes, durante e depois do Porto 2001, foram aparecendo pequenos espaços, que acabariam por, na sua grande maioria, desaparecer. Começaram como colectividades e terminaram quando os seus organizadores prosseguiram carreiras individuais. Eram sítios onde se expunha todo o género de objectos e ideias, onde se faziam concertos, onde se estava, simplesmente, de cerveja na mão. Eram casas, quase devolutas, ateliers, lojas, salas, cozinhas, às vezes varandas.

Dez anos depois, o Porto é uma cidade diferente. Os espaços abundam, embora sejam poucos os dedicados apenas à arte: são cafés, restaurantes, hostels, galerias, lojas, ateliers, escolas, às vezes acumulando muitas destas possibilidades, por uns dias ou permanentemente.

O ano charneira nesta mudança foi 2005. Foi então que abriu o primeiro hostel, o Andarilho, na Rua da Firmeza, criado e mantido por estudantes de artes plásticas, arquitectura e design — um pormenor que é crucial. Desde essa altura, os hostels multiplicaram-se, até ao ponto de neste momento, já aparecerem hostels que se procuram distanciar das conotações deste género de hotelaria, apostando numa imagem de luxo e exclusividade.

Mas não foram os hostels o factor de mudança; são apenas o seu sinal mais óbvio. Foi também em 2005 que a Ryan Air instalou uma base de operações no Porto. Em primeiro lugar, isso suportou um turismo impulsivo, barato, mas também uma cultura (não necessariamente barata nem ligada a este turismo) com uma característica muito particular: terem de se conformar com as dimensões de bagagem de mão da Ryan Air (55 por 40 por 20 centímetros).

Falo de ilustração de galeria, que é portátil e que pode ser adquirida por impulso, sem o know-how necessário para comprar Arte com A grande; de livros de ilustração ou de fotografia, que podem ser produzidos e consumidos sem grande uso da língua local, com poucas, nenhumas palavras ou inglês “internacional”; roupa; objectos vintage; comida e bebida (que nem precisam de viajar na mochila mas apenas de encher o bandulho); dança (que é uma coisa que se faz com o corpo).

Note-se que tudo isto não precisa de ser barato, apenas portátil – floresce aqui uma cultura que usa e abusa do adjectivo gurmê. E note-se que não é apenas o consumo que viaja mas também os artistas, ilustradores, músicos, conferencistas, o que favorece expressões portáteis, reduzidas ao que se pode levar no disco de um Mac ou enviar pelo correio.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. […] no Porto, onde arquitectos, designers e artistas têm respondido à crise através de uma cultura de bagagem de mão – abrem restaurantes, galerias, publicam fanzines e organizam eventos e festivais. O oposto do […]

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