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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Ironia/Treta na Obra de Joana Vasconcelos

Quando o Governo fala de “poupanças” já toda gente sabe que se trata de cortes, despedimentos, etc. Quando fala de “requalificação” é evidente que se está a falar de despedimentos. A “consolidação orçamental” é a nova designação para a “austeridade” – que antes de ter caído em desgraça servia para dar um toque de moralidade a despedimentos em massa, baixa de salários, destruição da função pública e por aí adiante.

A propósito disto, há quem se lembre da novilíngua ou os slogans de Orwell – “War is Peace”, “Freedom is Slavery” – mas parece-me bastante mais eficaz qualificar isto tudo como “treta”.

Segundo Harry Frankfurt, autor de um pequeno tratado sobre o assunto (On Bullshit, Princeton University, 2005), a treta seria algo diferente de uma mentira. Quando alguém mente, existe uma verdade que é deliberadamente ocultada ou distorcida; no caso da treta, não há qualquer tipo de relação com a verdade. Para o “artista da treta”, é indiferente se o que está a dizer é verdade ou mentira. Aliás, é até possível que seja verdade e mentira ao mesmo tempo. É o equivalente discursivo da banha da cobra, que cura a calvice aos cavalheiros e depila a perna às senhoras. Interessa apenas que convença naquele momento aquele público. Tudo o resto é secundário.

E para estes tempos de treta, temos (como seria de esperar) uma arte da treta. No Público de hoje, fala-se do cacilheiro de Joana Vasconcelos. Fala-se de como trouxe a bandeira portuguesa a Veneza, de como se traduz “numa performance cujo terreno de intervenção é a identidade nacional”, “coberto e mobilado com cortiça […] material representativo de um craft português” e de azulejos “outra arte decorativa nacional”.

E, no “interior, podem ainda ver-se e comprar-se múltiplos produtos representativos de uma cultura material de cariz popular que está hoje sujeita a processos vários de patrimonialização, frequentemente de carácter nacionalista (das latas de sardinha aos azeites e vinhos, das cerâmicas aos sabonetes e pastas de dentes), bem como objectos de design contemporâneo que reabilitam matérias que foram de uso artesanal.”

E ainda se fala de como a artista se socorre “de técnicas artesanais que, embora não tenham nada de exclusivamente nacional, assumem pelas memórias que evocam uma ressonância tradicionalista.” – crochés, etc.

Mas atenção: num “salto conceptual, Joana Vasconcelos afasta-se de um possível discurso crítico relativo aos processos de tradicionalização e de nacionalização presentes, que, apesar de serem transpostos para o interior do processo de construção de uma peça de arte, acabam por não ser desconstruídos. Ao mimetizar a lógica representativa das grandes exposições internacionais, o cacilheiro, que na realidade é uma peça central de uma performance concebida por uma artista, parece, sem o ser, um pavilhão representativo de uma cultura nacional.”

Assim, pelo toque da arte, um stand de promoção de empreendedorismo e produtos nacionais, de memorabilia nacionalista, apoiado pelo Estado, patrocinado por empresas recentemente privatizadas, precisamente por ser isto tudo e muito mais, “transforma-se” magicamente no seu oposto, na sua subversão. É muito simples. Nós é que somos burros de mais para perceber a ironia – que é como quem diz a treta.

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Filed under: Arte

4 Responses

  1. bruno baldaia diz:

    Acabo de descobrir graças ao teu texto que a banha da cobra pode funcionar se fôr aplicada sobre a careca imediatamente a seguir ao seu uso na depilação da perna da senhora.

  2. Marco diz:

    Não me canso de te ver desancar na JV (e sempre em grande estilo). Abraço

  3. A ironia de ser o desancar na JV das coisas que mais atraem publico ao blog, e daí a recorrência e a cumplicidade implícita.
    Recorda-me um pouco quem vendeu livros às custas de criticar a autora do “Sei lá”. Não seria mais coerente ignorar? Promover, activamente, alternativas?
    Afinal, julgo, criticar apenas reforça o fenómeno, um pouco como “lutar, pela paz”

  4. […] 1. Em outras ocasiões, já lhe chamei treta. […]

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