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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Crise de Identidade

Numa sociedade como a portuguesa, tende-se a pensar na identidade como algo estável, um dado adquirido. Tal pessoa é um designer, tal um arquitecto. Define-se alguém pelo seu curso, como se a sua identidade fosse isso, mas uma crise como esta abala todas as certezas. No editorial do último Jornal dos Arquitectos, percebe-se que está a desmantelar a identidade da própria Arquitectura. Com a falta de encomendas, os arquitectos mudam de profissão ou de país. O editorial defende que esta é uma lógica “equívoca: a arquitectura não é apenas um saber instrumental à mercê das flutuações do mercado; a arquitectura é uma forma de conhecimento útil nas mais variadas circunstâncias.”

Mas, como se vê pelo resto da revista, essas circunstâncias acabam por ser limitadas pela formação, pelas expectativas de carreira, pelas instituições, etc. Um artigo (intitulado animadoramente “Afinal ainda se constrói”) começa assim: “Diz-se que no passado o percurso típico de um arquitecto promissor se resumia em quatro passos: concluir o curso, estagiar num atelier, ensaiar-se em concursos públicos e, vencendo algum com certa dimensão, estabelecer um escritório em nome próprio. Esta realidade mudou radicalmente durante a última década. No panorama actual existem arquitectos a mais para concursos a menos.”

A identidade de um arquitecto depende assim de um percurso “típico” que depende da abundância (e do próprio formato) do concurso público; de um ingresso no mercado de trabalho mediado pela passagem em regime de estágio por ateliers. De fora deste percurso ficam possibilidades menos”interessantes” mas bastantes comuns – como ficar a trabalhar num desses ateliers, de entrar por carreiras mais ou menos exóticas como a hostelaria, a restauração, a curadoria, a edição ou até a arte.

Uma disciplina costuma ter identidades dominantes e identidades subalternas, que variam ao longo do tempo. Na história do cinema, por exemplo, é possível ver como em certas épocas domina o realizador, em outras o argumentista, o produtor ou o actor. Na arquitectura como no design, a identidade dominante deriva de factores tão básicos como a economia, a tecnologia ou a pedagogia. Um atelier bem sucedido (no design como na arquitectura) dependia da interacção entre as escolas (através do estágio ou mesmo da acumulação de tarefas docentes por parte do patrão) e de um fluxo constante de encomendas públicas. Alterando-se o modelo de Estado, o ensino e as finanças públicas, tudo isto desaba.

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Filed under: Crítica

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