The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ser Nihilista é ter na alma… nananana

Desde que venho mais a Lisboa que já me habituei ao ritual antes dos jogos: “Eu sou do Benfica”, “Sou lagarto. E o Mário?”, “Ele não é de nada.” Pois. É triste. Porque não se trata exactamente de não gostar de futebol ou sequer de lhe ser indiferente. Quando estou com gente vejo os jogos mas não “vibro”.

Prefiro outros desportos ao futebol, a corrida ou a natação, mas percebo que não produzem o espectáculo mediático dos desportos de “equipa e bola”, onde a competição é menos linear e depende de um panteão de personalidades.

Sei que o futebol é uma coisa importante para muita gente. Daí não me chatear demasiado o grau de atenção mediática e de financiamento directo e indirecto que lhe são dedicados. Gostaria que os seus negócios fossem mais transparentes, éticos ou até legais – mas poderia dizer isso de qualquer negócio, seja público, privado, na indústria, nos serviços ou nas artes. Numa democracia, a atenção e o dinheiro nem sempre vão para aquilo que nos interessa mais ou, indo, não vão da maneira mais exemplar.

Tudo isto para falar (ainda) da escolha de Joana Vasconcelos como artista de regime   – não se trata apenas de Veneza mas de Versalhes, etc.

Houve ocasiões em que fui acusado de, por discordar desta escolha, ser contra a própria ideia que as artes devem ser apoiadas. Em outras, fui acusado do oposto, de ter contestado a escolha, mas de ainda assim não ter ido suficientemente longe e não ter dito nada sobre “aquele escândalo” de se andar a gastar dinheiro com a cultura que, se fosse boa, deveria financiar-se sozinha, etc.

No primeiro caso, trata-se de uma falácia de composição óbvia: pode-se apoiar as artes sem apoiar um artista em particular. No segundo, há um conjunto de falácias ainda mais perigosas. Há sempre um conjunto de práticas culturais que desaparecem, pura e simplesmente, se não tiverem apoios do Estado. De algumas, pode-se dizer que são fósseis ainda vivos de tradições e costumes. E ainda argumentar que preservá-los pode ser bom para o turismo, ciência, etc. De outras, é bastante difícil fazê-lo de modo convincente.

Por exemplo, nos últimos meses, em áreas como o design ou a arquitectura, têm havido cada vez mais queixas sobre a falta de concursos públicos, e que essa escassez põe em causa o modo tradicional de praticar cada uma destas disciplinas (ver o caso do logo da Flup ou o ultimo número do Jornal dos Arquitectos). No fundo, trata-se de reinvidicar ao Estado apoios que permitam manter um certo modo de fazer e de saber durante um tempo de escassez – um subsídio indirecto.

Trata-se no fundo de pedir a preservação de um modelo de negócio, argumentando que é uma cultura, mas poder-se-ia dizer o mesmo dos vídeoclubes ou do jornalismo impresso. Qualquer uma destas áreas foi determinante em termos culturais mas perdeu protagonismo. Cada uma delas deixou de ser competitiva em termos de mercado. No caso dos vídeoclubes, essa perda é sobretudo dos investidores, porque a sociedade em geral já se dedica a outros formatos e modos de consumo, e é patrimonialmente mais urgente dedicar recursos a preservar e exibir filmes em película. No caso dos jornais, tem-se ensaiado soluções que tornam o jornalismo menos dependente do mercado – criando jornais que funcionam como ONG ou empresas sem fins lucrativos –, porque se entende que desempenha um papel essencial na nossa sociedade.

Em qualquer um destes casos, o papel regulador do Estado é essencial, não apenas como financiador mas como administrador democrático do que se consideram ser os recursos básicos para manter a identidade e coesão de uma sociedade. Esta intervenção pode ser criticada por ajudar a manter coisas que parecem obsoletas e ultrapassadas mas (precisamente por isso) ajuda a suavizar e distribuir ao longo do tempo mudanças que de outro modo seriam traumáticas e destrutivas – este papel do Estado é um dos argumentos mais interessantes do livro A Grande Mudança de Karl Polanyi. Pelo contrário, a lógica actual parece defender que uma mudança só é boa se for um choque social extremo, se tiver consequências sociais e culturais imediatas, etc.

Enfim, tudo isto para dizer que defender um certo modelo de prática no design, na arquitectura, na arte, implica defender um certo modelo de Estado e portanto de política. Aliás não se podem defender com sucesso essas práticas sem assegurar primeiro esse modelo.

Anúncios

Filed under: Crítica

5 Responses

  1. «Tudo isto para falar (ainda) da escolha de Joana Vasconcelos como artista de regime – não se trata apenas de Veneza mas de Versalhes, etc.»

    Uma pequena nota só para dizer que Joana Vasconcelos expôs em Versalhes a convite do “Etablissement Public du Château, du Musée et du Domaine National de Versailles” e do “Château de Versailles Spectacles”, com comissariado de Jean-François Chougnet.

    Ou seja, não ia em representação do regime, mas dela própria.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: