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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Crivelli

Há uns dias, a arte chegou às primeiras páginas do caderno principal do Público, ocupando umas seis ou sete logo de uma vez. Seria bom, se não fosse mais um daqueles casos que dá a volta ao estomâgo: uma pintura renascentista única, um Crivelli, saiu do país. Não vai voltar. Foi embora. Pais do Amaral, o proprietário, quer vendê-la porque não se encaixa na sua colecção. O então Secretário de Estado Viegas autorizou-o, apesar do parecer dos peritos, que propuseram elevar a pintura a “Tesouro Nacional”. Calculo que o Estado nem vai cobrar IVA pela venda – é mais fácil taxar uma bica ou um croissant.

Na sua crónica de hoje no Público, João Miguel Tavares põe o dedo na ferida. Não porque diga algo de particularmente acertado mas simplesmente porque ouvir alguém a argumentar a favor de mais esta estupidez tem um efeito semelhante a enfiar o bico de uma lapiseira numa cárie e esgravatar.

O argumento central resume-se a isto: o Crivelli não pertence ao País mas ao Pais. Contudo o próprio Tavares admite uma excepção: que o quadro só pode ser impedido de sair “num país decente” se tal decisão for: “1) […] considerada absolutamente excepcional; 2) […] acompanhada de um cheque de três milhões à ordem de Pais do Amaral.”

Na verdade, a decisão não pode ser considerada “absolutamente excepcional”. O que torna isto num Caso é haver uma lei que enquadra estas situações, e de acordo com ela, o quadro não podia ter saído. Aliás, os donos anteriores do quadro só o venderam a Pais do Amaral por causa dessa limitação. “Excepcional” foi a decisão do Secretário que decidiu sem ter sequer ouvido o parecer (contrário) dos peritos – sendo Viegas, como escritor de policiais, perito num género onde coisas valiosas mudam de dono de maneiras engenhosas, fica ao critério de cada um decidir qual o parecer mais adequado à situação.

Se interessa ao proprietário vender o quadro, ao Secretário de Estado interessa representar o interesse do público, coisa que este Governo não consegue sequer fazer de conta que cumpre. Afinal, o que é um Crivelli comparado com um sistema postal ou o fornecimento de energia e água ao país?

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Filed under: Crítica

One Response

  1. Luís Magalhães diz:

    O que o argumento dessa espécie de nilton do público mostra bem é que no maravilhoso mundo liberal só existe o valor da propriedade privada, à disposição do seu proprietário e dos seus interesses. Tudo o resto que digam (eles, os liberais) são tretas, ou como muito bem explicado aqui há uns posts atrás, serve apenas para convencer no momento, não tem qualquer tipo de relação com a verdade. Por isso, agora que se privatizam as águas, os correios etc, falam em salvaguardas, obrigação de defesa do interesse público, melhor gestão(!!), todo o tipo de coisas para apaziguar a opinião pública. Mais tarde o proprietário tem o direito de fazer o que quiser visto que a empresa é dele e se nos queixarmos estamos a limitar a sua liberdade (só se for a liberdade de nos foder a vida) ou outra coisa do género.

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