The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Lá como cá

Não há grandes dúvidas que a arte institucional (estudada e ensinada em escolas, conservada em museus, exibida em feiras e bienais) representa o poder. Agora, a questão será sempre: que género de poder? Numa sociedade plural trata-se de vários poderes, políticos, económicos, religiosos. Se essa sociedade for democrática, essa arte representará a democracia, não no sentido de encontrar objectos que representam uma maioria dentro do gosto (esquecendo ou sufocando tudo o resto), mas o máximo de gostos diferentes que seja possível, com os recursos disponíveis.

Lembremo-nos disto a propósito de um artigo de Nicolau Santos no Expresso desta semana, que se resume a uma peça de propaganda acrítica – excepto num pormenor, mesmo no fim, onde realmente se faz um reparo, bastante duro até.

Na peça, consegue-se dizer que aquilo foi tudo feito quase sem dinheiro e apoio do Estado, enquanto se refere o apoio de António Costa, a presença do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Portas (que já tinha assegurado o convite da artista para Versalhes), e toda uma lista de patrocínios, desde a corticeira Amorim até à Viúva Lamego. Mesmo que não houvesse dinheiro do Estado envolvido (e houve), é bastante claro que este pavilhão, se não é uma imensa troca de favores flutuante, devia-se esforçar um pouco mais por não o parecer – é normal, por exemplo, que a irmã do Ministro que “tutela” a coisa tenha uma loja no cacilheiro?

Um dos problema de privatizar o apoio à cultura é que não se percebe como tudo isto funciona. É calculadamente irónico, no pior sentido do termo, que uma amálgama promíscua de interesses privados, familiares, políticos, financeiros, se embrulhe na bandeira, nos azulejos e nos pastéis de nata, nos símbolos de uma coisa, um país, cuja identidade vai deixando cada vez mais de ser pública – num processo cada vez menos transparente mas mais descarado. Um cacilheiro transformado em quiosque gurmê é a melhor representação de uma terra onde se fecha escolas, hospitais e bibliotecas para abrir cafés e hotéis de luxo.

A arte representa o poder, e percebe-se bem que tipo de poder este cacilheiro representa.

Mas no fim do artigo há realmente uma ou duas palavra mais duras para a bienal e para o prémio que deu à representação de Angola. Conclui-se: “The award follows the money.” Lá como cá.

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Filed under: Crítica

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