The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Do Contra

Há dois anos, no Domingo em que Passos Coelho foi eleito, já não consegui aguentar os resultados que iam aparecendo por freguesia e saí à hora do jantar para tomar café. Cruzei-me com um velhote de pólo que me disse “O Passos ganhou.” Respondi: “Sim, o Passos ganhou.”  Ele: “Não, o Passos GANHOU!” Desta vez com dois polegares escanzelados no ar e um sorriso. Eu nem disse mais nada.

O entusiasmo não me surpreendeu: Sócrates era odiado e eu estava em Vila Real, a terra de Passos Coelho, que uns meses depois lhe daria uma medalha de ouro, só porque sim. No café, nos dias anteriores à eleição havia sempre alguém a declamar alto e bom som como Passos acabaria com “esta pouca-vergonha.”

Ocorreu-me que bochechas donde sai treta destetimbre estão mesmo a precisar da aplicação tópica de um par de estalos. Calculo que esse remédio esteja a ser aplicado pelo próprio dono das bochechas cada vez que lê as notícias ou antes de ir para a rua cantar o Grândola pela primeira vez. Auto-medicação.

Por azar, não cheguei a votar nas eleições presidenciais. Nunca votaria em Cavaco. Não votaria em Manuel Alegre – a quem muita gente chamava o Poeta Alegre ou simplesmente o Pateta Alegre. Já me tinha resignado a votar em branco, quando uma viagem inesperada me impediu de ir a Vila Real.

Neste momento, olho para Manuel Alegre e Cavaco e sinto aquilo que muito americano sente (respectivamente) pelo par Al Gore / George Bush. Ponho-me a fantasiar sobre o que poderia ter sido se tivéssemos mais juízo.

Tenho votado em partidos fora do eixo da governação. Estou habituado a que não ganhem. Escolho-os pelos assuntos que defendem, doutro modo ausentes da discussão pública. E por fazerem boa oposição a quem nos governa. Já me habituei a que os descrevam como partidos do contra, que nem saberiam como governar se chegassem a tal.

Mas não é isso, precisamente isso, que é este governo? Um partido que governa em nome dos poucos contra os interesses de quase todos, que liquida tudo onde toca, escolas, direitos, salários, empregos. Não há talvez um partido mais do contra. E, claro está, não faz a menor ideia do que está a fazer. E foi assim que um país com tanto desprezo pelos partidos do contra acabou por eleger o pior deles todos.

Anúncios

Filed under: Crítica

3 Responses

  1. João Urbano diz:

    Fico perplexo com uma coisa. O que vejo que uma certa esquerda relativamente moderada e mesmo menos moderada defende para Portugal é a conservação de um Estado social que em grande parte foi solidificado por Cavaco Silva. Para mais na altura ele seguiu os ditames do Kensianismo. Engordou o Estado e fez muito (mal ou bem aplicado) investimento público. Guterres seguiu-lhe a peugada até ao dia em que se pirou. Quando olho a receita Kensiana de um liberal de esquerda como Krugmann lembro-me de Sócrates. Ele também privilegiou o investimento público só que este deixou de funcionar e a economia e durante quase uma déçada mal crescemos. Em suma, quando ausculto a nossa esquerda fico siderado com a sua falta de imaginação política. Socorrem-se de slogans gastos e em particular o Bloco com o fim das causas fracturantes nada nos tem a dizer de outro senão apontar o dedo aos bancos e querer conservar nas mãos do Estado tudo que resta. Mas jamais ousou ferir todos os interesses corporativos que se banquetearam durante décadas à mesa do orçamento. Do PS nem é bom falar, que mal suba ao poder tornar-se-á novamente um cão de fila de todos os interesses capitalistas e financeiros do Burgo. Em suma, se a direita é má, o PS pouco se diferencia dela e o Bloco e o PC são um total desastre. Não existe o mínimo de rasgo nessa esquerda, apenas passado, passado.

    • “Solidificado por Cavaco Silva”? Jesus.

      E quanto a receita Keynesiana de Sócrates, recorde-se que (1) já se andava a buzinar que o país estava em crise e de tanga pelo menos desde Guterres e Barroso, daí soluções de estímulo, mesmo que a “crise” tivesse aspas (2) essa receita Keynesiana quando a crise perdeu as aspas foi secundada pela Europa, só para depois o tapete ser tirado pela Alemanha com os resultados que se está a ver.

      Quanto aos slogans gastos e etc. A Direita também os tem (as gorduras, a despesas, é preciso cortar) e está-se a ver a qualidade da coisa agora que está a ser posta em prática. E o PS, desde que Seguro disse que as dívidas são para honrar só tem alguma hipótese de ganhar se Passos (por uma vez) cumprir a sua promessa e concorrer a 2º mandato.

    • Ainda fiquei a cismar com aquela do Cavaco Silva ter solidificado o Estado Social: um bocado como o Darth Vader fez ao Han Solo no Império Contra Ataca, não é?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: