The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Esquerda Selvagem

Embora tenha nascido e vivido a minha infância em Lisboa, mudei-me muito cedo para Trás-os-Montes com os meus pais, profissionais do ambiente. No final dos anos setenta era um sítio escanzelado e extremo. Não era propriamente uma região de esquerda. Em Vila Real, na mesma altura em que a minha família se instalava, um jovem beto chamado Pedro Passos Coelho descobria a política. Mais tarde, quando comecei a comprar jornais, o senhor do quiosque passava-me todas as semanas o saco de plástico do Expresso, exclamando “Mais uma dose de social-democracia”. Chamavam-lhe “O Comunista” como em “Vou ao Comunista comprar uma chicla”. A alcunha usada assim, no singular, dizia muito.

Assim, fui descobrindo a esquerda lentamente. Não através da família mas à medida que fui amadurecendo. Pertenço à esquerda selvagem, não no sentido de andar por aí a partir coisas, mas no sentido silvestre, de beira de estrada – selvagem é melhor palavra para um título de blogue.

A esquerda do sul ou a esquerda mais urbana, em particular a de Lisboa, é bem mais complexa, organizada e articulada. Tem o que se poderia chamar um património intelectual acumulado que não vem só de livros, filmes e de ver televisão, mas de discutir e debater em público num ambiente onde fazê-lo vale a pena. É um ambiente fascinante que se confirma em qualquer ida a alfarrabistas onde se encontram os vestígios de discussões anarquistas, feministas e vegetarianas ainda oitocentistas.

Se há talvez algum problema nesta complexidade é apenas uma certa futebolização da política, no sentido clubista do termo. Cada tendência é muito competitiva e identitária em relação às restantes, o que torna os compromissos difíceis. Não é um problema que aflija muito a direita, não porque seja mais coesa mas porque tende a ver a esfera pública como um território onde se deve exibir coesão. A discussão deve ser privada. Para a esquerda-esquerda (quando muito a parte mais esquerda do PS) a discussão é pública e a democracia é o governo através do debate (e não o governo do “deixem-nos em paz até à próxima eleição”).

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Filed under: Crítica

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