The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Culturas da Crise

Qual a cultura mais eficaz em Portugal nesta crise? Eu diria que é a cultura de rua, os posters, os grafitti, a ocupação de espaços públicos abandonados com escolas, bibliotecas e hortas. São esses actos que são mais críticos no sentido de acrescentarem algo à esfera pública. A crítica produz-se somando discursos divergentes, concordantes, ao discurso público. A censura é o acto de os subtrair, tornando a esfera pública mais pobre.

Não chamaria a esta cultura de rua “Arte Pública” porque a expressão tem sido usada para designar intervenções exteriores de grande escala, esvaziando-a de todo  o sentido. Em alguns casos, essa “arte pública” está até associada a intervenções de privatização de espaço e recursos públicos – veja-se a intervenção de Cabrita Reis na Barragem da Bemposta.

Esta cultura de rua interessa porque demonstra que, mais do que um direito, uma vida pública é uma necessidade que exige um mínimo de apoio para poder ser exercida com dignidade.

Às vezes esse apoio limita-se à liberdade de associação. Neste momento, torna-se bastante difícil, mesmo ao nível da linguagem, criar relações que não sejam empresariais. Veja-se a expressão “organização sem fins lucrativos” ou “non-profit”, que parece descrever uma espécie de empresa descafeinada.

É significativo que, no caso da Horta do Monte, tenham havido protestos que se está a substituir um projecto comunitário por talhões individuais. Dir-se-á que é a mesma coisa, basta combinar os talhões, mas não é: apagaram-se as relações existentes em nome de uma normalização que assume uma intervenção individual como regra base.

Não é difícil perceber que o processo de “liberalização” na prática traduz-se em abanar a sociedade, desfazendo  toda a relação que não possa ser enunciada em termos empresariais. Não se trata de proibir em absoluto, apenas marginalizar tanto no sentido legal como no sentido de as tornar algo que se faz por lazer, nos tempos livres, em privado.

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Filed under: Crítica

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