The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Trabalho e Trabalheira

Passei boa parte da greve de ontem em casa, a adiantar avaliações e a resmungar que um dia antes ou um dia depois teria tido bastante mais efeito. Teria coincidido com prazos de entregas de notas.

Ainda me iludi a pensar que podia passar o dia pelo menos sem responder a mail de trabalho, mas não. Deixei o telemóvel desligado e sem bateria como consolo.

Fora o tempo de aulas, dá a sensação que não faço outra coisa para além de ler, verificar e avaliar o trabalho de outras pessoas, muitas outras pessoas, cada vez mais. É um trabalho estúpido e estupidificante que faço com cada vez menos gosto, em grande parte porque é cada vez menos respeitado. Ou pago, que na nossa sociedade é o mesmo.

Dá-me cada vez mais vontade de só responder à catrefada de mails com monossílabos, se responder de todo. É falta de educação, dizem, mas ganho a vida a escrever. Cada mail ou chat que me é enviado sem solicitação rouba-me umas tantas palavras. É como se fosse obrigado a responder a toda a correspondência endereçada não solicitada que me entra pela caixa do correio. Dá-me vontade de mandar de volta um botão de donate do Paypal.

Dá-me cada vez mais gana de deixar de ocupar uma tarde a dar mais uma entrevista para mais uma tese ou paper. Porque o método aceite para orientar estas coisas é dizer aos alunos que a tese fica valorizada se conseguir umas tantas entrevistas. Ou seja desvalorizando o tempo de umas tantas pessoas – uma sugestão: antes (em vez) de  entrevistarem alguém, leiam o que essa pessoa já escreveu. Sintetizem, critiquem, etc.

Mas as teses construídas à base de entrevistas são o reflexo óbvio das cadeiras construídas a partir de aulas dadas por convidados. A sugestão é a mesma: antes (em vez) de pedirem a alguém para dar uma conferência, porque não ler o que essa pessoa já escreveu? Sintetizem, critiquem, etc.?

Isto não são perguntas retóricas e têm uma resposta: porque ninguém tem tempo, os alunos são muitos, as cadeiras são muitas, as solicitações são muitas. Já não é possível preparar aulas ou fazer investigação como antes. Só é possível passar a batata quente à pessoas seguinte.

E tudo isto e mais enquanto ouço o nosso Governo a falar de aumentar a produtividade, etc. Vão @$$#!!!

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Filed under: Crítica

One Response

  1. Marco diz:

    A sinceridade desarmante com que falas do pesadelo dos emails, da burocracia e da desgraça a que chegou o ensino, faz-me respeitar-te cada vez mais enquanto cronista e professor. Para um cínico pode parecer ingénuo, mas se não formos capazes de ser verdadeiros com os nossos alunos, nas coisas que dizemos e nas posições que assumimos, nada temos para lhes ensinar. Grande abraço

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