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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Vão dar uma Curva

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Apesar do gráfico, isto não vai ser um texto sobre economia.

Nesta altura da crise, já ouvi falar da Curva de Laffer mais do que gostaria. Já ouvi o Ricardo Araújo Pereira a gozar com Miguel Sousa Tavares pela maneira como pronunciava “Lafner” e não “Laffer”. Todas as semanas alguém invoca a tal Curva. O que não surpreende, porque a Curva é um argumento que defende a existência de um nível de impostos ideal que, se for ultrapassado, começa a diminuir a receita para o estado. No fundo é um modo gráfico de dizer que a partir de certa quantidade de impostos já não compensa trabalhar.

Porém como se lembra aqui, a Curva é um conceito que não tem qualquer tipo de aderência empírica. Foi desenhada num guardanapo por um tipo chamado Laffer durante um jantar onde estava presente Donald Rumsfeld. Só isso chega para explicar a sua difusão.

Dá a entender (erradamente) que a taxa óptima não ultrapassa os 50%. Dá a entender que a curva é a mesma para todo o tipo de rendimentos (na verdade, o efeito dos impostos sobre a disponibilidade para trabalhar é maior nos rendimentos mais baixos). Etc.

Mas para perceber como é uma treta basta reparar como seria possível fazer uma curva semelhante para salários, imaginando que um corte de salário é um imposto que se traduz em receita para quem paga o salário.

Tendo em conta que neste momento temos uma economia onde em muitos casos nem sequer se paga salário durante meses (estágios, etc.), é fácil verificar que mesmo um corte de 100% não desencoraja totalmente as pessoas de continuarem a  trabalhar. Aliás, em muitos casos até se paga para trabalhar – assegurando despesas logísticas, de saúde e de deslocação, por exemplo – o que faz com que o corte seja superior a 100%.

Não digo isto para defender que o Estado cobre mais de 100% de impostos. Apenas para estranhar que as mesmas pessoas que invocam a Curva de Laffer não se lembrem de invocar uma curva semelhante em relação aos salários. O raciocínio é o mesmo: abaixo de certo salário já não compensa trabalhar.

E é claro que não é verdade: às vezes trabalha-se por gosto, por fé, ou simplesmente porque trabalhar ainda é visto como garantia que fazemos parte da sociedade. É essa necessidade do trabalho enquanto alicerce da identidade que é cada vez mais explorada actualmente, em empresas onde se pagam misérias e o trabalho é mascarado de rituais de competição desportiva, de descontracção, de dias temáticos – ambientes tão artificiais como os cenários de uma jaula num jardim zoológico.

Enquanto se cortam os feriados promovem-se os “Casual Fridays”. Enquanto se corta nas férias, promovem-se os retiros de equipa onde uma empresa inteira vai passar um fim de semana de trabalho a qualquer lado. A ideia de empresa substitui-se à ideia de comunidade ou de sociedade.

Os impostos, no fundo a quota que se paga para manter a sociedade a funcionar, seriam idealmente eliminados. Neste momento, já praticamente só servem para pagar dívida privada nacionalizada. Não asseguram serviços, saúde, educação, infra-estruturas. O corte de salário torna-se no novo imposto – mas apenas para quem trabalha, claro.

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Filed under: Crítica

2 Responses

  1. De diz:

    Um excelente post!

  2. Marco diz:

    Muito bem, como sempre! Grande abraço!

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